Aqui estou mais um dia.

PM, ocupação, USP, sei lá como se escreve

Publicado em Uncategorized por Shepones em 08/11/2011

Todo mundo já falou a merda que quis sobre a ocupação, então agora é minha vez. Vamos lá:  tudo começa com uma premissa muitíssimo errada, a de que você é um reacionário careta se é contra a maldita ocupação.  Isso, além de desonesto e burro, é contraproducente, e é justamente por isso que a ocupação foi tão criticada (e é, também por mim) desde o começo, inclusive por muita gente de esquerda.

É claro que existem inúmeros problemas na USP (instalações precárias, baixos salários, falta de moradia, etc) e lutar pela correção de todos eles é direito, quiçá dever, dos estudantes. Mas voltemos no tempo:  o que desencadeou a ocupação?

Três alunos fumando maconha.  Ou seja, na prática, a luta começou com a opinião pública perdida. E não adianta dar de ombros para isso, amigo: o mundo não é o tipo ideal onde quem grita mais alto ganha com a ajuda de Trotsky Vindo à Cavalo.

Ganha quem for mais esperto e convencer a maioria.

Nesse ínterim, a discussão tomou dois sub-caminhos. O moralista, maconheiros x caretas. Eu, que nunca fumei um cigarro na vida mas comprarei até seda pros meus filhos, cheguei a ler alguém insinuando que quem não usa nenhum tipo de droga não é rebelde o suficiente pra ser de esquerda. Hahahaha.

Teve também o lance da PM no campus.  Se queremos democracia, a democracia tem que valer para o bem e para o mal, e a maioria ali no campus quer a presença da PM por N motivos que já foram expostos à exaustão. A PM, desnecessário dizer, faz parte da democracia – eles desocuparam o local com mandado judicial.

“Ah, fumar maconha não é crime”. Não é, mas a PM tá no papel dela, meu chegado, infelizmente. Ponto. Não adianta tirar a autoridade do Estado quando convém. Quer dizer, até adianta, e essa avaliação subjetiva dá sim margem pra discussão, mas a ocupação nesse contexto foi, pra mim, um erro também sob esse ponto de vista.

Bom. Daí que os alunos decidiram protestar contra a prisão (e depois deram um golpe ao não acatarem a vontade da maioria e manterem a ocupação) ocupando o prédio da reitoria. Que existam – e existem, como já disse – mil razões para se protestar, não me parece inteligente e politicamente sagaz ocupar um prédio da universidade a partir da prisão de, repito, três  alunos fumando maconha.

“Ah, faculdade é lugar para subverter”. Sim, também acho. Sou a favor da desobediência civil em determinadas circunstâncias (é na hora de definir qual delas são apropriadas que dá merda, como já disse). Mas não dá pra ser a favor de um ato de desobediência civil TÃO MAL CONTEXTUALIZADO.

Ontem mesmo (segunda, dia 7 de novembro), foram divulgados dados informando que o número de alunos nas universidades federais DOBROU em 10 anos. Sem contar o ProUni.

Ou seja, Dona Maria tá toda feliz com o filho saindo do Capão e do Eliza Maria todo dia pra estudar na Uninove. E o aluno da USP – que em sua grande maioria, sim, veio de colégio particular -  ocupando a FFLCH. Dona Maria vê o filho dando um puta corre, liga a TV, vê a prisão dos manos fumando maconha e depois a ocupação. O que a Dona Maria vai pensar e comentar com os vizinhos?

Pois é. Não precisa fazer FFLCH pra entender isso.

Aí vira a história do mentiroso. O cara mente uma vez, você acredita. Mente a segunda, você acredita. Na terceira, você não acredita de antemão e ele tava falando a verdade. É o que acaba de acontecer com a credibilidade do movimento estudantil. Uma pena.

Por que a morte de Steve Jobs me deixa perplexo

Publicado em Uncategorized por Shepones em 06/10/2011

Morreu Steve Jobs.

Fico triste pelo falecimento, afinal sou um ser humano (“nunca pergunte por quem os sinos dobram”) e meu interesse não é tratar a morte do cara com desdém. Mas tem uma coisa que me incomoda muito: a mitificação do empresário (e não visionário) e a forma como ela se deu.

Steve Jobs inventou umas paradas legais e realmente inovadoras, é verdade. Mas será que as inventou sozinho? Será que eram tão inovadoras assim?

Um pequeno exercício mental: quem aqui sabe o nome do criador do Walkman?

Se o criador do Walkman – um produto inegavelmente revolucionário – tivesse se “automarketeado”, talvez  tivesse sido o gênio que Steve Jobs foi. Como não era dono da Sony, e apenas um funcionário, morreu em fevereiro deste ano sem que ninguém lembrasse seu nome.

Pra mim, esse culto  desavergonhado à personalidade do dono da Apple é fruto de um marketing fudido, e o marketing, a propaganda, como sabemos, não apela pra nossa razão.

Produtos criados coletivamente, por centenas de designers, analistas e desenvolvedores viram obra de um único gênio. Mérito ou imposição de uma tática muito bem sucedida de marketing?

Na Apple, o  “cool” e o “sofisticado” sempre se confundiram deliberadamente entre criador e criatura. Steve Jobs centralizava em si a imagem que gostaria que as pessoas tivessem de seus produtos.

O empresário, o capitalista – e é isso que ele é, objetivamente – Steve Jobs vem sendo mitificado há anos. Na prática, ele é um empresário que desenvolveu – nunca sozinho – ótimos produtos. A sacada, repito, foi ele ter personificado o “cool” na Apple  (usando jeans, camiseta e barba mal feita?). Marketing.

Mas tudo bem. Consideremos, como disseram alguns amigos, que o cara fosse de fato um gênio.

Ser um gênio seguindo todos os passos do sistema e lucrando bilhões de dólares (fortuna estimada de US$ 8 bilhões). Isso é ser visionário, revolucionário? Francamente. Pode ser um exemplo de pessoa que subiu na vida e se deu bem seguindo toda a lógica do sistema, no máximo.

Pra mim não interessa se você tem ou não os produtos dele – eu adoro Big Mac, mas nem por isso ficaria sentido com morte do Barão McDonalds. Me impressiona, de fato, como as pessoas reproduzem um discurso acriticamente.

Steve Jobs é um ícone do sistema. No entanto, vendeu a si mesmo (e aos próprios produtos, claro) duma maneira tão boa que ficou “cool” e ninguém questiona isso. Quem questiona, aliás, é louco, burro ou “tem que morar em Cuba”.  Todo mundo faz propaganda da Apple de graça como se a empresa tivesse os mesmos fins que a AACD.

Jogar o jogo é uma coisa. Endeusar o jogo é outra totalmente diferente. E é por isso que me dá um tristeza ver essa comoção toda. RIP Nobutoshi Kihara.

Amor

Publicado em Pensamentos por Shepones em 18/09/2011

Lembro do dia em que te tive pela primeira vez nas minhas mãos. Parece que foi ontem, sabe? Você era tão lindinha e carinhosa, aqueles olhinhos enrugados…. Nem tamanho tinha! Parecia um ratinho, enfiada sob um moletom adolescente pra fugir do frio do inverno. Mas como era fofa, meu Deus… Foram quase 11 anos juntos; estive ausente em alguns momentos, gritei contigo em outros, fui desatencioso em mais alguns, eu sei. Imperfeito ser humano – ao contrário de você, que na sua lealdade sincera sempre esteve ali pra mim. Suas lambidas, mal- criadezas e todas aquelas escapadelas sorreteiras por debaixo das cobertas pra se aconchegar ao meu lado, nunca vou esquecer. Nunca. Um amor sincero, tenho certeza. Mas agora você se foi. Se foi para se livrar da dor, eu sei, mas me dói quando recordo de ti. Penso nisso por um instante, neste instante, e choro. Choro como um recém-nascido, e dói muito. Ver teu cantinho vazio é estranho. O silêncio também  – é como houvesse um silêncio em mim mesmo.  Dói.  Como é difícil, meu Deus! Mas olha, hoje ouvi uma frase bonita: “só sente a dor da perda quem teve a alegria da presença”. Eu tive sua companhia por todo esse tempo e tenho certeza que a sua presença trouxe um pouco mais de amor e doçura, pra mim e pra este mundo. Alguns dizem que você não é um de nós, mas pra mim você sempre foi até mais do que isso – foi, é e será para sempre um pedaço do meu coração. É… Quem diria que esse dia iria chegar. Espero que você saiba que tudo que eu fiz foi pensando no teu bem.  Você sabe, tenho certeza. Tá bem, vou parar de chorar, prometo. Mas a saudade, ah, essa não vai acabar nunca. Descansa e fica bem, Bulma. Eu te amo muito.

Eu tenho merda

Publicado em Uncategorized por Shepones em 01/06/2011

My lips are shakin’, my nails are bit off
Been a month since I’ve heard myself talk
All the advantage this life’s got on me
Picture a cup in the middle of the sea

And I fight back in my mind…
Never let’s me be right, oh…
I got memories, I got shit
So much it don’t show…

I walked the line
When you held me in that night
I walked the line
When you held my hand that night…

An empty shell seems so easy to crack
Got all these questions, don’t know who I could even ask
So I’ll just lie alone and wait for the dream
Where I’m not ugly and you’re lookin’ at me

And I’ll stay in a bed
Water blue,I’ve seen it..
If just once, I could feel loved
Oh, stare back at me, yeah…

But I walked the line
When you held me in that night
Oh, I walked the line
When you held my hand that night
Oh, I walked the line
When you held me close at night
I paid the price, never held you in real life…

 

***

 

Acabei de ouvir no rádio e decidi compartilhar a música que me dá os melhores sentimentos dessa vida.

 

 

Derrubando o ego

Publicado em Pensamentos por Shepones em 30/05/2011

“Seu comercial de TV não me engana

eu não preciso de status, nem fama

seu carro e sua fama já não me seduz

e nem a sua puta de olhos azuis”

“O ego é foda”. Ouvi essa frase de um ex-chefe muito gente fina coisa de 6 anos atrás, mas acho que só hoje consigo entender o que ele realmente queria dizer. Quando eu era jovem e comunista, achava que seria possível atravessar os anos que viriam pela frente imune ao aliciamento do sistema. No entanto, à medida que você envelhece, percebe que determinados comportamentos tidos como “idealistas” são contraproducentes para se dar bem no jogo, por mais coerentes e racionais que sejam.Vou tentar dar um exemplo prático: você recebe uma proposta para ganhar o dobro no trabalho, desde que abra mão de metade do tempo livre antes dedicado a seus prazeres pessoais.  Há quem diga que optar pela promoção pode ser um sacrifício temporário em prol de uma conquista permanente no futuro. Sem dúvida é. Pode-se, por outro lado, criticar quem prefere viver o hoje? Se você aceita a promoção, ótimo; se nega, sabe que vai ouvir merda de tudo quanto é lado (“você é jovem, pode trabalhar bastante”, “como abriu mão desse dinheiro?”). A pressão, além de social, também é individual, e é aí que entra o ego: você acaba entrando na lógica do sistema e punindo a si mesmo por contrariá-la (“será que sou preguiçoso?”, “vou jogar minha carreira no lixo”). São duas escolhas legítimas e perfeitamente racionais – uma delas, no entanto, é mais legítima que a outra aos olhos da nossa sociedadeO capitalismo desumaniza as pessoas, não só pela exploração, mas também pela maneira como as faz pensar segundo as regras do próprio capitalismo. Vejo essas reportagens mostrando homens e mulheres enlouquecidos em busca de currículos perfeitos, rejeitando inclusive coisas naturais como ter filhos em prol de suas carreiras. Hmmm. Hoje, aos 25, continuo jovem (acho) e comunista (tenho certeza), mas descobri que a cooptação não vem sob a forma de iPod ou Playstation 3. Espero chegar aos 50 com o desapego daquele meu ex-chefe, pra também poder dizer: “o ego é foda, mas temos que controlá-lo se não quisermos nos tornar pessoas vazias e cheias de si”.

Eles dobram por ti.

Publicado em Uncategorized por Shepones em 24/05/2011

“Nenhum homem é uma ilha, um ser inteiro, em si mesmo; todo homem é uma partícula do continente, uma parte da terra. Se um pequeno torrão carregado pelo mar deixar menor a Europa, como se todo um promontório fosse, ou a herdade de um amigo seu, ou até mesmo a sua própria, também a morte de um único homem me diminui, porque eu pertenço à humanidade. Portanto, nunca procures saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti“.

Por John Donne.

Serenidade

Publicado em Literatura por Shepones em 20/05/2011

As notícias circulam por meio de amigos (às vezes não mais amigos); ninguém as tem pelos jornais, porque já não circulam há dias, desde o primeiro alerta. Todos sabem que amanhã é o último dia. Encontros, choros, abraços, saques, incêndios, amantes saindo das sombras, cocainômanos vagando como zumbis pela cidade, vendettas – o prenúncio do fim descontrola e promove a verdade. Nem as sirenes funcionam mais, e a única iluminação disponível é aquela dos carros incendiados, nas quais indigentes e internos psiquiátricos em fuga se atiram diuturnamente. Alojada num hospital próximo ao epicentro do fim do mundo,  Maria tenta se recuperar de um câncer. Tem um bom plano de saúde, mas não tem família e também não vem tendo sucesso no tratamento: há alguns dias constatou-se que a doença havia se espalhado do pulmão para o restante do corpo. Médicos e enfermeiros abandonaram o local poucos dias depois, os amigos sumiram em meio à esbórnia do apocalipse e ela ficou sozinha, ouvindo os urros vindos das ruas e refletindo sobre si mesma. Maria terá apenas alguns meses de vida, plantada num leito de hospital cheirando a álcool. A volúpia de sua conta bancária parece-lhe insignificante neste momento, de modo que fica contente em igualar-se ao resto dos mortais diante da perspectiva do fim. Ainda que pudesse sair daquele lugar, não deixaria que seus impulsos tomassem conta, posto que Maria não é o tipo de pessoa desejosa de provar algo para qualquer um a não ser para si própria.  O juízo final, pensou, “não é um acerto de contas entre o Divino e o homem, mas uma luta do homem  contra si mesmo”. Abaixa lenta e calmamente as pálpebras inchadas. Com uma serenidade incomum à ocasião, acredita ter tido uma boa vida, e não carrega dentro de si grandes rancores nem arrependimentos. Na escuridão dos olhos fechados, sorri, satisfeita por sua metástase ter se alastrado para o mundo lá fora, sem atrapalhar seu encontro com Deus.

Não escolhi minhas paixões. Elas que me escolheram

Publicado em Pensamentos por Shepones em 16/05/2011

Republico o post de um membro do 10 Club, fã-clube oficial do Pearl Jam, num tópico sobre o festival que a banda tá pra anunciar e no qual será headliner. O cara, apelidado Lebowski, pede ajuda sobre o que fazer para ir ao show sem ter de brigar com a mulher. Total empatia aqui: quem tiver ciúme das minhas paixões vai ficar só com o ciúme.

***

“I’m sure I am not alone when it comes to engaging in “negotiations” with my spouse for the 2-night, 3-day furlough to East Troy, WI (assuming it is there). The facts: We have 3 wonderful children, ages 9, 7, and 3. As a human being, we have passions in our lives. I didn’t select these passions, they pretty much selected me [grifo meu], including Pearl Jam, the Phillies, and Eagles. I don’t go to many games, and I’m not the crazy fan type of guy. My family is most important to me, bar none. It would be difficult for my wife without me around for the three days, no doubt. What am I to do? I really want to go to PJ20. I could go into the numerous ways this band has influenced my way of living, thinking, etc., but I’m sure you have heard it all before [grifo meu]. This is a once-in-a-lifetime event, and I feel I need to be there. What am I going to do? Any thoughts?

The Dude Abides,

Lebowski

Depois da cerveja

Publicado em Literatura por Shepones em 15/05/2011

- Gostar de alguém com quem você não pode ficar é foda.
- Por que você não ficou com ela?
- Pessoa certa na hora errada.
- Você não tá idealizando, não?
- Juro que não. Consigo pesar minuciosamente todos os prós e contras.
- Qual o balanço?
- Prós ganha de 9 a 0.
- Ela pensa o mesmo em relação a você?
- Tenho a mais absoluta certeza.
- Aí é foda mesmo.
- Não é, velho?!
- Cara, também vivi isso. É tenso!
- Por que não rolou?
- Pessoa certa na hora errada.
- Hmmm.
- E ela casou e foi morar fora. Aí já era.
- Foda. E o que você fez depois?
- Vou vivendo. A gente tenta gostar das que vem, se esforça, mas…
- Né? Também tenho essa sensação.
- De que sempre falta aquilo.
- Exato. Então… Vou tocando de lado, vivendo. Sei lá.
- Você compara todas as minas com ela?
- Sempre. Pior que é involuntário.
- Então você tá fodido mesmo.
- É. Eu sei.

Catraca

Publicado em Literatura por Shepones em 14/05/2011

Hoje ele foi pegar o metrô e ficou prestando atenção nos casais se encontrando na catraca. Não foi a primeira nem a última vez que o fez, mas desta vez sentiu alguma coisa nova diante daquilo: indiferença. Ficou extraordinariamente bem na solidão dos seus fones de ouvido, quando há alguns anos estaria invejando aquelas pequenas felicidades, ou pensando em como as teria. De fato, também as teve, muito embora com elas tenham vindo as pequenas (e grandes) decepções, com o mundo e consigo mesmo. Não importava. Passou a repensar os próximos passos, apertou o play e decidiu que agora não tomaria o primeiro trem à vista, de modo a se acomodar melhor durante o resto da viagem.

Soda

Publicado em Literatura por Shepones em 09/05/2011

“I’ve givin’ everything I need
I’d give you everything I own
I’d give in if it could at least be ours alone
I’ve given everything I could
To blow it to hell and gone”

Um Fiat Uno azul marinho parou no ponto de ônibus, e ali trocaram os primeiros olhares. Era para ser apenas um jantar entre duas pessoas com meia dúzia de afinidades em comum, mas a empatia entre os dois logo baniu rituais e formalidades. Abriram mão do restaurante caro e num exercício de desapego conjunto optaram pelo Habib’s da periferia. “Você quer mesmo entrar aí?”, perguntou ele, de soslaio. A fome que não existia foi expulsa pela risadinha cúmplice, e então passaram a se comer ali mesmo. Depois veio a sede, e uma garrafa de soda virou a lembrança da noite. Com exceção de rápidos encontros furtivos, ficaram alguns meses sem se ver, mas recorriam à música para recordar com carinho um do outro. “Acho que tô me apaixonando”, ela disse. Ele ficou desconcertado, mas levou aquelas palavras a sério, e pensou por bem que seria um enorme desperdício não guardá-las. Jogou fora o medo, colocou-as no coração e embaracaram numa relação em permanente conflito com os adjetivos. Alguns os chamaram de loucos, outros de imaturos e até mesmo de irresponsáveis e inconsequentes. Ele, um moleque, se assustava com a vida pregressa daquela mulher; ela, uma mulher, se assustava com a falta de comprometimento daquele moleque. A rotina chegou, e com ela os problemas do dia a dia. Não se abalaram, pelo contrário, passaram a se admirar em meio às dificuldades, que eram muitas e alheias as suas vontades. Fruto de um encontro despretensioso, aquele casal improvável resistia – viam um no outro o próprio reflexo, e consideravam-se almas gêmeas. Não foi suficiente, de todo modo: perceberam que não tinham os mesmos objetivos e a velha desculpa logo se impôs. Pegaram caminhos distintos: sorriram, apanharam, riram, choraram, viveram. Durante o trajeto se machucaram bastante, e as feridas provaram que só um poderia curar definitivamente o outro. No entanto, sabiam, ele e ela, se tratar de algum tipo de provação destinada a testar o amor entre ambos, e isso lhes dava força para seguir em frente. As almas gêmeas respiraram por um instante e prosseguiram. Não seria mais um Fiat velho a uni-los, mas a própria vida e suas experiências: era questão de tempo para que, mais cedo ou mais tarde, seu amor saísse da clandestinidade e pudesse ser gritado antes de outro gole de soda gelada. “Eu te amo”, disseram.

“Take my hand, not my picture”

Publicado em Pensamentos por Shepones em 03/05/2011

Todo mundo tem seu ritual. Tem quem tome seu vinho, quem leia o jornal durante o café da manhã, quem vá caminhar no parque. O meu é assistir a shows de rock, diversão maior da vida.

Meu primeiro show foi aos 13 anos, num festival de bandas numa escola da Casa Verde. Entrei na roda num cover de Killing In The Name e fui pro chão – era inverno, e algum filhodaputa me puxou pelo capuz da blusa. Machucou? Um pouco. Gostei da experiência?

Pra caralho.

Ano passado, graças à Providência Divina, entrei na roda em Killing In The Name de novo, mas no show da própria dita cuja. Nesse intervalo, não só a banda era outra: a experiência de se viver um show de rock também mudou. Tanto que dessa vez eu não caí.

Em 1999, quando sofri meu batismo do rock, ninguém tirava foto da bagaça – magina, câmera digital só devia existir no Japão ou em refilmagem do Blade Runner! Hoje não: você vai em qualquer show, do mais ameno ao mais caveira, e tá lá, metade do público tirando foto.

Câmera digital, o crack dos shows de rock.

Longe de mim desmerecer o trabalho de quem garante minha diversão no youtube. Não me incomodo com os flashes, mesmo. Penso é na relação que a pessoa que tá ali, com a máquina na mão, tem com o espetáculo. É paradoxal: as pessoas ficam ansiosas em ter lembranças do momento, mas esquecem de viver o momento.

Sim, porque se você se concentra em fotografar ou filmar, abre mão de apreciar a música nos seus detalhes – numa palavra, de sentir as emoções que a música pode te causar.

Já chorei em show, já fiquei puto, aliviado, triste, nostálgico, com sorrisos indisfarçáveis no rosto. Nesses anos de roqueiragem, aprendi na prática uma obviedade não tão óbvia assim para muita gente: câmeras não registram sentimentos.

Se o rock é mesmo uma religião, o show é a missa de domingo de manhã. Empunhar uma câmera num show de rock é como levar carne para a Igreja na Sexta-feira Santa. Não mata ninguém, mas é um puta desrespeito com os fiéis realmente praticantes.

Há vários possíveis responsáveis por essa pequena heresia cultural contemporânea: a sociedade de consumo, os preços exorbitantes dos ingressos, a pista VIP, a ansiedade generalizada, as Casas Bahia. É o de menos, de todo modo.

No rock e na vida, seria bom se as pessoas fossem um pouco menos efêmeras e se dedicassem mais ao ser do que ao ter. É como o dito daquela velha camiseta surrada:

- “Take my hand, not my picture”.

11/9

Publicado em Pensamentos por Shepones em 02/05/2011

“Diego, não abre a porta porque os caras tão querendo matar a gente”, disse minha mãe. Barulhos de explosões, carros queimados e barricadas dominavam a Rua Luis Sérgio Person. Minha vó também havia sido instruída a não abrir a porta, mas ela era ingênua: alguém na rua gritou “Olha o gás!”, ela foi lá e… abriu a porta. Três ou quatro pessoas de roupa branca, lenços enrolados na cabeça e coletes camuflados entraram, decapitaram ela e meteram uma bala de AK-47 na cabeça da minha mãe. Não tive tempo de chorar. Vi tudo da janela do quarto – elas foram mortas no corredor lateral – e imediatamente comecei a correr. Escalei milagrosamente o muro do quintal de casa, que tinha uns 10 metros de altura, e consegui fugir. O bairro dos Bancários estava sitiado em setembro de 2001. Por alguns segundos, consegui raciocinar alguma coisa em meio aos tiroteios, e então decidi me abrigar na casa de um amigo, o Polga. Chegando lá, fiquei escondido por algumas horas no porão; me sentia cinza por dentro, e mal conseguia falar. De repente um desconhecido apareceu me oferecendo armamentos: granadas, foguetes antiaéreos, um Kalashnikov e pistolas. Sem agradecer, peguei tudo e abandonei o porão, não sem antes – talvez inspirado em Rambo – amarrar eu mesmo um lenço branco na testa. Saí de lá atirando em todos os seres vivos que via pela frente, até chegar em uma rotatória numa rua sem saída das adjacências. Instalei-me numa barricada de sacos de areia que ficava na entrada superior de um desses escadões de bairro, ali na região da rotatória. Não demorou e fui alvejado. Resisti alguns minutos e troquei mais alguns tiros com um inimigo que eu não conseguia identificar, até que uma granada explodiu ao meu lado. Morri. Não fui, porém, sepultado no mar: acordei e levantei para trabalhar, impressionado com a pirotecnia dos aviões daqueles dias.

Observações da Realeza

Publicado em Pensamentos por Shepones em 29/04/2011

Apagam-se as luzes da Casa de Windsor: a patricinha burguesa e o porquinho rosa de sangue azul enfim se casaram. Agora reis, príncipes e povo são um só, e a paz volta a reinar na Bretanha. Tudo está bem. Será? Tamanha alegria e comoção merecem algumas pequenas observações:

***

Nunca fomos (oficialmente) colônia inglesa, mas o burburinho gerado pela festa mostrou a grande admiração que o brasileiro nutre por aquele país nublado e de comida ruim. Prova disso é que as mesmas pessoas que reclamam todo dia dos impostos se derreteram por meia dúzia de privilegiados bancados por… impostos.

"Vamo que falta pouco pra pagar a carruagem, galera!"

Eu, particularmente, desconhecia essa habilidade dos brasileiros em adaptar a lógica ao país.

***

A imprensa brasileira é mesmo excelente. Por aqui, cumpriu muito bem seu papel de macaquear toda a cerimônia e os valores nela implícitos: ordem, tradição, hierarquia, submissão, obediência. Legal, mas alguém consegue vislumbrar o The Guardian cobrindo o casamento da filha de Ernesto Geisel? Acho um paralelo apropriado.

***

Saiamos do Brasil. O que será que africanos e indianos, estes sim amigos da Realeza há um tempão, pensaram da festinha? Queria tanto saber. Os africanos em especial lembram com carinho de um inglês chamado Cecil Rhodes. Cara bacana e empreendedor, ajudou a consolidar quase todo o Império Britânico no continente no século retrasado. Muito fiel às ordens da Coroa, não cumpriu sua missão de maneira muito simpática, de todo modo.

"É louco o bagulho, arrepia na hora, ó, Rhodes, maior imperialista da história"

É de Rhodes a seguinte afirmação: “acho que somos a primeira raça do mundo, e quanto mais habitarmos o mundo, melhor será para a raça humana”.

***

A Bélgica, assim como o Reino Unido, também tem uma Família Real. Nos dois países elas não têm poder de fato, mas já tiveram e nada garante que não voltarão a ter qualquer dia desses.

No século 19, os belgas deram ao mundo o Rei Leopoldo II. Leopoldão comprou um pedaço de terra na África – hoje conhecido como Congo – e fez dele seu país particular para explorar madeira, borracha e outras matérias-primas importantes para os imperialistas da época.

Quem não cumpria as cotas de extração, ficava assim:

"Parece um conto de fadas, né, gente?"

***

É claro que racismo e atrocidades de todo tipo podem acontecer em qualquer regime político, mas em governos autocráticos e monárquicos esses absurdos acontecem mais facilmente devido a sua concepção naturalmente injusta e desigual e à falta de controles democráticos – ou você imagina um rei sentado num tribunal do Fórum de Santana?

Nesse sentido, concordo integralmente com o jornalista Paulo Moreira Leite em seu artigo “Que casamento é este?”. Recomendadíssimo. Inté!

Enterrando os mortos

Publicado em Literatura por Shepones em 24/04/2011

Um misto de autismo social com orgulho e ausência de autocrítica causaram-lhe a primeira morte. Ela fingiu simular o velório do próprio corpo, mas ressuscitou antes mesmo do início da cerimônia. Despistou amigos, parentes e todos aqueles que a amavam e que ali estavam para render-lhe uma última homenagem. Pôs os pés para fora daquela sala cinza e, sob aplausos dos corvos,  voltou a tocar a neve que caía depois de um curto verão, a gritar a plenos pulmões, a explorar sensações físicas  adormecidas. Sentia-se bastante viva; em realidade, nunca estivera morta, apesar das tumbas e cruzes ao seu redor inspirarem-lhe uma aparência mórbida. De volta ao mundo dos vivos, no entanto, não sabia como proceder. A fuga – e ela sabia disso, embora jamais admitisse – era só mais uma maneira de justificar a procura por um caminho que desconhecia. Interessados em quebrar a monotonia do lugar, os corvos continuavam aplaudindo, enquanto aqueles que um dia a amaram sentiam-se desprestigiados com a indiferença de quem nunca lhes deu ouvidos. Logo a sala do velório esvaziou-se, as opacas luzes do cemitério foram desligadas e os portões, trancados . Todos,  incluindo os corvos, foram embora. Anoiteceu e ela ficou ali, ouvindo apenas a própria voz e tentando esquecer os vazios enquanto apalpava mais uma vez os flocos de neve.  Vivia, por certo, mas era questão de tempo até que a segunda e definitiva morte viesse cumprir sua promessa.

Caviar e champagne

Publicado em Uncategorized por Shepones em 22/04/2011

(Cenas relatadas por um aspirante a policial militar em São Paulo)

***

Batalhão recebe chamado inusitado numa madrugada da década passada: uma cortina havia sido instalada na parede lateral de um velho túnel da região central. Dois soldados e um tenente recém-saído da preparação de oficiais foram enviados para verificar a ocorrência. Assim que chegou ao local, a patrulha notou que a misteriosa cortina escondia um corredor. Sem surpresa, os policiais presumiram que se tratava de mais uma dessas moradias escuras e insalubres que são improvisadas todos os dias por mendigos, viciados e indigentes nos becos da capital. Com pouca experiência nas ruas, coube ao tenente adentrar o recinto. Descobriu-se então um corredor iluminado por lâmpadas azuis de um lado e vermelhas de outro, cada qual com sua parcela de imagens de santos, exus e demônios. Perplexo, desnudou  outra cortina. Atrás dela, velas pretas, mais luzes vermelhas e um casal com punhais em mãos; ao centro havia um pentagrama, e sobre ele um bebê de nove meses sem roupas. Foi um início de carreira e tanto para o jovem oficial.

***

Viatura vai às ruas do bairro da Liberdade para checar denúncia de esfaqueamento. Flagrante dado: os policiais depararam-se com um homem fincando inescrupulosamente uma faca no braço de outro. Sem pensar duas vezes e no estrito cumprimento da lei, um dos soldados alveja o esfaqueador, que entra em óbito na mesmíssima hora. Ainda assim, o policial foi preso um par de dias depois: o morto estava ajudando a retirar a faca encravada na vítima.

Carta ao meu amigo e terapeuta

Publicado em Pensamentos por Shepones em 21/04/2011

Querido amigo,

Quando eu tinha apenas onze anos, ouvi suas primeiras palavras de apoio. Tudo começou quando você me falou sobre como ver as coisas mais claramente pelo retrovisor. Apesar de ainda ser uma criança, achei aquilo muito sensível. Era uma época de amadurecimento, incertezas e descobertas. Isso foi logo depois de sermos apresentados por um amigo em comum, que havia acabado de me emprestar aquele disquinho laranja. Depois, ouvi de você que o ser humano tinha o dom de voar, e que o amor que a gente dá é o amor que a gente guarda para si. E eu voei. Voei de peito aberto para a vida, para o amor, para os desafios.Você me deu confiança para seguir em frente. A essa altura, meu amigo, você já era parte importante da minha vida.  Com o passar dos anos, acabamos nos afastando um pouco, mas o sentimento continuava ali, vivíssimo. Então chegou 2005, o ano em que finalmente nos conheceríamos pessoalmente. Quando soube de sua vinda, fiquei histérico, completamente ensandecido, amalucado. Me senti imaturo por tamanha ansiedade, mas logo vi que não estava sozinho: imediatamente conheci centenas de pessoas com a mesma admiração por ti. Algumas delas, pessoas maravilhosas, tornaram-se grandes amigos meus, tudo graças a você. Pois bem. Segure minha mão, ande ao meu lado que eu só preciso dizer: lembro até hoje de cada momento daqueles três dias em que nos encontramos. Ainda não tive um filho, então posso dizer com tranquilidade que foram os melhores dias da minha vida. Tive a sensação de estar nas nuvens, tão alto que o vento podia me balançar.  Naquela época, assim como ontem e hoje, seu apoio foi muito importante para mim. Desde então, meu amor por você, que já era grande, só fez aumentar. Não passamos um dia sequer sem trocar pensamentos, e sempre procuro saber como você está, mesmo à distância. Meu quarto está repleto de lembranças suas e até me tatuei em sua homenagem. Por conta da minha paixão, a maioria das pessoas me acha doentio, nostálgico ou até mesmo infantil. Elas não entendem que você me reconforta de uma maneira terapêutica, e está ali para mim sempre que eu preciso. Eu não ligo. Tenho minhas memórias, minhas merdas, e isso é o suficiente. Hoje estou vivendo uma fase difícil, então decidi escrever para deixá-lo a par da situação e reiterar meu amor por você. Sim, eu sei que você já me disse milhares de vezes que é melhor viver no presente, que só eu posso me perdoar, que eu devo me segurar às ondas porque a maré vai mudar. Estou tentando, conseguirei com certeza, e boa parte disso devo a sua ajuda e carinho ao longo desses treze anos. É isso. Muito obrigado por existir, meu amigo. Espero revê-lo novamente ainda neste ano.

Beijo grande,

Diego

Insolação

Publicado em Literatura por Shepones em 19/04/2011

Os pés descalços denunciavam um desconforto latente. Sob o sol amarelo, caminhava por uma longa estrada reta, cujo destino era incerto. Às vezes recorria ao cantil pendurado na camisa, mas sabia que aquela água, escasseada, estava por acabar. Fitava o céu e temia. Temia a ausência de nuvens, a sede, a força com que a luz violentava seus olhos. Andava pela contramão, e logo a insolação causou náuseas, tontura e lhe embaralhou os pensamentos. A alucinação durou pouco – tempo suficiente, no entanto, para trazer-lhe à mente memórias insondáveis. Não havia trânsito, tampouco quem se dispusesse a dar uma carona. Sua única companhia eram as aves negras que rondavam à espreita.

Peixe

Publicado em Pensamentos por Shepones em 18/04/2011

Completei 25 anos há pouco mais de um mês. Nesse tempo, tive algumas vitórias. Com um pouco de sorte, algum planejamento e atitudes coerentes, consegui uma posição relativamente confortável na vida, contrariando (valeu, Mano Brown) o que as estatísticas reservavam para mim. Mas, de uns tempos para cá, as coisas mudaram. Não estou mais nadando de braçada. A maré baixou. Isso vem me fazendo refletir sobre meu comportamento. Sou uma pessoa idealista, mas não de uma maneira fefelechiana, sabe? Por mim, FMI, você pode ficar! Cobro de mim mesmo uma postura romântica diante do mundo. Detesto parecer egocêntrico, odeio fazer média, abomino falsidade e apego ao poder, em especial a micropoderes cotidianos. Mas quem não é contra tudo isso? O ponto é o seguinte: o mundo é assim. Não posso jogar Banco Imobiliário com as regras de War. Tenho dificuldade em lidar com esse conceito simples de pragmatismo social. Posso dar exemplos práticos: magoar gente por ser estupidamente sincero, perder trampo por falar demais ao invés de apenas ficar quieto, dar terapia de choque pra quem precisava de carinho, não de realidade. Tenho combatido essa postura, e já melhorei bastante. Hoje tenho mais facilidade em sorrir pra gente que mereceria uma egípcia. Ao mesmo tempo, tenho medo de estar sucumbindo ao cinismo e de estar forjando uma nova visão de mundo por medo de morrer na praia. Poder-se-ia chamar isso de crise existencial. Não sei se é o caso, mesmo. Mas há, sim, alguma crise em mim, e está sendo bem difícil lidar com ela, seja qual for. Tem outras coisas, também. Sou meu maior carrasco, acredite: culpo a mim mesmo dia sim, outro dia também por tudo de ruim que me acontece. Essa cobrança me trava, fazendo com que eu leve mais tempo para maturar mudanças importantes a minha evolução – profissional, social, espiritual, amorosa. E assim vai, num ciclo demorado e difícil de ser quebrado. Acho que isso requer mais leveza, e eu sou uma pessoa naturalmente tensa. Será que não estou velho para mudar? Ou é só uma fase? Dúvidas, incertezas, inseguranças. Estou me sentindo encalhado naquela areia modorrenta, sem saber se a onda vai me puxar de volta para o mar ou se eu vou morrer ali mesmo, sozinho, vendo o cardume passar.

Poema do argentino

Publicado em Literatura por Shepones em 31/10/2010

Na arrancada da vida
nosso Rei se pôs a correr
inimigos caíram aos montes
a rainha fez por merecer

Mas um dia ele também caiu
E todos sofremos
Temendo que a neve
levasse o nosso pequeno

Foi então que chegou
O verão desse herói
Renascido das cinzas
É das bandeiras os sóis

Inverteu o curso de um rio
Não era de ouro, era de prata
Do gramado para o coração
de um povo que por ele mata

Vingador da cisplatina
contra o poder imperial
Deus albiceleste
fez do Céu a mão genial.

Parabéns, D10S!

Porque sou a favor do aborto

Publicado em Pensamentos por Shepones em 17/10/2010

Flagra da furada de fila mais desavergonhada da história: um marmanjo na casa dos trinta ignora uma menina que  esperava para comprar uma casquinha com o dinheiro contado nas mãos. Na hora de pegar seu pedido, o furão atravessa outro cliente, argumentando pressa. É  autorizado. Pega o sorvete, sai rindo e, como que se a pressa desaparecesse em segundos, afasta-se caminhando tranquilamente.

“Ele não estava com você?”, pergunto à menina, na verdade uma criança com no máximo 10 anos de idade. “Não”, ela me responde. “Na próxima, não deixa fazerem   isso com você, não, senão quando você crescer ninguém vai te respeitar”, digo. “Tá. Obrigada!”, diz a mocinha. Chato, insisto: “Nossa, eu jurava que era teu  pai! Que cara de pau, né?”. Ela responde, olhos cabisbaixos: “Eu não saio muito com meu pai…”.

Sem querer, fiz um movimento com a sombrancelha. A menina, com uma carinha melancólica, continuou: “…É que meu pai e minha mãe são  separados”. Balbuciei que os meus também o são, talvez para disfarçar a familiaridade da situação. É, amigos. Não é fácil se impor para o mundo.

Pôr do sol

Publicado em Literatura por Shepones em 20/09/2010

Noto o reflexo de meus próprios olhos em meio ao vapor e neles há uma profundidade que denúncia o cansaço do dia a dia. Ônibus, suor, desrespeito, salário imoral, dependência. Constatar uma rotina banal é tarefa inglória.  É preciso dizer, entretanto, que não se trata de uma visão minuciosa. Pelo contrário: é um reflexo opaco, e exige grande esforço para ser captado.  Os azulejos carcomidos exalam cheiro familiar, com a densidade de uma enchente prestes a mitigar inquietante ansiedade. “Poderia ser pior”. Coragem, resignação, não há espaço para fraquejos e lamentações. Foi um dia como qualquer outro – afinal, à humanidade convém fugir de suas próprias responsabilidades. Desligo o chuveiro, mas a água continua caindo sobre mim.

Hoje assisti Legendários

Publicado em Uncategorized por Shepones em 29/08/2010

Lembro como se fosse hoje quando vi Hermes & Renato pela primeira vez na MTV. Acho que o ano era 2000, e lembro de uns caras que mandaram um vídeo pra uma promoção do canal ou coisa assim. Era um vídeo totalmente descompromissado, espontâneo e tosco. Ou tosco porque era espontâneo, enfim. Hoje, dez anos depois, os caras do Hermes e Renato se juntaram com o Marcos Mion pra sair do underground televisivo em busca do sucesso no mainstream. Aquela história que todo mundo sabe. E hoje, também, assisti pela primeira vez o resultado dessa mudança, que atende pelo nome de Legendários.

Sabendo que o programa já foi muito criticado, deitei minha bunda na cama com a maior boa vontade: tentei me livrar do preconceito que pode nos acometer ao ler essas mesmas críticas. Abri o coração, e fui em frente. Quase meia hora de programa, muita boa vontade e… nada. Nem uma risadinha. E olha que me esforcei. Legendários é um programa constrangedor.

Constrangedor porque se traveste de “politicamente correto” para disfarçar a própria incompetência em ser engraçado. Antes bastavam dois ou três palavrões e um close de câmera desajustado que lá estava eu rindo como uma criança. Hoje é diferente. Não tem como rir de um “pra caramba” quando se sabe que um “pra caralho!” seria muito mais eficiente. Os caras não conseguem mais fazer humor forçando esterótipos. Foi o que vi numa esquete, onde os antigos protagonistas de Hermes & Renato fizera uma paródia sofrível de Troca de Família – intitulada “Tretas de Família”, em que policiais paulistas e bandidos cariocas trocavam de família.

Constrangedor porque comandado e dirigido por um indíviduo cuja empáfia escurece qualquer talento, ainda que houvesse. Marcos Mion é patético. Já o era como apresentador, ainda na MTV. Sempre o vi como um ator/apresentador superficial e forçado, de maneira que suas atuações sempre me pareceram uma grande farsa. Deu certo antes da Record porque à frente de programa – O Piores Clipes do Mundo – cuja fórmula daria certo mesmo que sob o comando de um macaco amestrado como eu.

Num dos quadros, Mion anunciava que seu ventríloquo, Mionzinho, iria aprender a fazer a barba. Não contente em anunciar o quadro, Mion, em sua onipresença ególatra, narrou a peça na íntegra. Façamos um exercício: visualize Marcos Mion narrando um homem aprendendo a fazer a barba. Sem brincadeira: foi a coisa mais sem graça que vi em toda a minha vida. Repito: assisti ao programa com a maior vontade de dar risada, sabendo das pancadas que Legendários vem recebendo da crítica. Faço gangbang com equinos se alguém em algum lugar do universo deu uma risada sequer desse quadro.

Mudei de canal, sentei para escrever e me perguntei: qual o preço da nossa essência?

Acho legal os humoristas do Hermes & Renato ganharem uma grana violenta na Record. Mas… será que eles estão satisfeitos com o resultado do próprio trabalho? Até minha vó sabe que não.Provavelmente eles estão conformados em garantir a própria aposentadoria, sabendo que, para isso, terão de abrir mão de grande parte do reconhecimento e do respeito que seus antigos fãs nutriam por eles. Do jeito que está, Legendários – cuja audiência vem caindo mais que o Neymar na grande área – certamente não trará nenhum novo fã para os caras. Já o Marcos Mion, com ou sem aposentadoria, deve continuar o mesmo pedante de sempre, seja na Record, na MTV ou na Canção Nova. Triste.

01:02

Publicado em Pensamentos por Shepones em 28/07/2010

Há dois dias não durmo. A insônia me induz ao desabafo, que por sua vez é violentamente reprimido pela ojeriza à vitimização. Admito, todavia, que estas linhas são uma tímida contribuição a mencionada prática, muito embora o relato que se apresenta não passe de uma simples introdução – e não a problemática em si. Ninguém daria a mínima, de todo modo. MERDA! O que fazer? Um amigo, escondido em canto pragmático do córtex, sugere tocar essa vida ordinária para que um dia, quem sabe, o dinheiro compre minha paz de espírito pelas argumentações vomitadas por um terapeuta qualquer. Pra quem só queria um abraço e alguma compreensão, não deve ser mal negócio.

Frila de puta II

Publicado em Pensamentos por Shepones em 21/06/2010

Fulano says:
aliás mano..tenho uma boa pra te contar, hein…

Diego says:
manda

Fulano says:
ontem recebi uma declaração de amor da sul-africana…hahahahha..vaaaaaaaaaaaai, uma puta se apaixonou por mim..sou foda

Diego says:
HUHAEUHAEUHAUEHUHAEHAUHEUAHEUHA
to chorando

Fulano says:
fiquei chocado..só espero q não encha meu saco
olha, te falar q…..
aí sim, fui mto surprendido

Diego says:
HUAHEUHAEUHAUEHUAHEUHAEUHAUEUHAUA
por onde? tel? sms? orkut? carta?

Fulano says:
então..ela mandou um sms estranho pq não atendi..daí resolvi ligar pq já presenti q ia dar merda mais pra frente

falei UMA HORA com a fdp e ela não se declarou..daí depois ficou mandando msg falando q me amava e o kralho a quatro. lógico q cortei né..espero q funcione

***

A mina fazia frila. Foi só se apaixonar que voltou a ser puta.

É…

Peripécias sexuais de um taxista de meia idade

Publicado em Literatura por Shepones em 08/06/2010

Mais uma noite gelada de segunda-feira se fechando depois de extenuante labuta. Fome, saudade e olheiras: nada disso importa quando se tem à mão um boleto de táxi.

- Rapaz. Trabalho nisso há quinze anos, sempre à noite; das seis da tarde às seis, sete da manhã, de segunda a sábado. A família tá acostumada, sou casado, tenho filho. Mas me aconteceu uma coisa uns tempos atrás, a primeira vez em todos esses anos: comi uma passageira. É, foi a primeira vez em quin-ze a-nos! E como era gostosa. Eu olhava a vagabunda descendo do prédio, você tinha que ver como era gostosa. Só de olhar eu já ficava de pau duro. E o prédio onde ela morava, em Perdizes? Meu Deus do céu. Peguei ela em frente ao prédio, deu dois minutos e ela ligou para o namorado, “tô indo pro restaurante na Rua Amauri. O quê? Você tá na academia dez pra meia-noite???”, e desligou o telefone. Aí me disse: “moço, posso fazer uma pergunta: o que o senhor acha disso?”. Aí eu falei “mulher, você é um tesão, é rica, inteligente, só de te ver caminhando até o táxi já fiquei de pau duro; eu acho que esse cara é viado”. Ela disse “minha amiga falou a mesma coisa, moço!”, ligou de novo pro namorado e cancelou a saída. Trinta e dois anos, uma delícia; porra, como o cara não queria comer ela? Tenho 42 anos e, o senhor me desculpe, quando tinha trinta batia punheta de dez em dez minutos. Aí pediu pra eu deixar ela de volta em casa, beleza, chegou lá, pagou a conta, vinte conto, e falou: “o senhor não quer subir?”.  Meu amigo, fiquei da meia noite até as quatro da manhã trepando; quase comi o cuzinho!  A mulher era perfeita, putaqueopariu – até a gulosa era perfeita! “Você é um tesão”, eu falava. Eu nem acreditava que tava comendo aquela mulher. E pra trabalhar depois? Ainda tive que sacar dinheiro pra minha esposa não desconfiar que deixei de rodar…

Peço para estacionar à esquerda depois do carro prata, e menciono que vou arredondar o valor pra sessenta reais.

- Obrigado. Um dia desses teve uma que ficou me alisando o cabelo, e no final pagou um boquete pra mim aqui. É tara. Tem cada louca na noite… E uma outra, que veio com papo que tava grávida? Aqui não: sou operado já faz cinco anos!

Despeço-me e, com tremedeira, esfrego as mãos enquanto atravesso a viela que me leva pra casa. O taxista abre o vidro lentamente:

- Diego? Você esqueceu a sua via do boleto.

Gente finíssima.

Desconforto sobre rodas

Publicado em Literatura por Shepones em 02/06/2010

Vermelho. Esfregou as mãos suadas não com o intuito de secá-las, mas sim de aplacar o frio. Fazia doze graus, e este homem inferiu a informação de um relógio fincado no meio da avenida enquanto esperava. Assim como o suor não o incomodava, tampouco era inquietado pela baixa temperatura. Um minuto parado lhe parecia toda uma vida de espera, de maneira que buscava passar o tempo com pequenas atividades, como trocar de disco, revirar pequenas e indóceis pilhas de papéis ou fumar um cigarro. A sua direita, um automóvel cujo valor facilmente superaria o de sua própria casa no subúrbio, o que o levou a balbuciar alguma coisa contra uma certa classe média que ele por certo invejava. À esquerda, não havia automóveis, somente o espesso do sereno que cobria o vidro lateral, ofuscado por um outro ser humano.

Amarelo. Uma barba negra mal cultivada, de corte disforme, sobressaía-se ante a cadeira carcomida que carregava pelas beiradas da metrópole um homem maltrapilho, ensimesmado em seus próprios pensamentos abjetos, impossíveis de serem decrifados e por quem, contudo, havia sinos a dobrar. Aqui dentro, este homem, o primeiro, mas não mais importante, balbuciou mais alguma coisa para si mesmo, desta vez, porém, sem resquício de inveja.

- Não vem.

Verde. Já passava de meia noite, e o homem, agora o de fora, ensaiou um movimento para um lugar qualquer, o qual, evidentemente, não foi possível ao outro homem – o de dentro – observar para que evitasse algum tipo de atração. Felizmente não houve importunação de nenhuma parte, e puderam seguir tranquilamente seus destinos.

Síndrome de Estocolmo

Publicado em Literatura por Shepones em 18/05/2010

Às vezes tinha vontade de ser apenas um livro escondido na estante, com vergonha de ser lido; noutras, dialogava ante o espelho como se este fosse um interlocutor desconhecido, em busca da cura para um mal que, embora endêmico, ninguém saberia ao certo diagnosticar. Amava, sofria e chorava por razões que sabia, sim, identificar. Mas não admitia. Sobretudo amava, muito, o que felizmente lhe dava forças para seguir adiante. Ansiava por experimentar todos que visse à frente, e a este desejo também poderia perfeitamente atribuir uma causa que julgar-se-ia psicologicamente pertinente. Verdade: só queria a Síndrome de Estocolmo para perdoar, sem fé em quem quer que seja a não ser em si mesmo.

Escuro

Publicado em Literatura por Shepones em 10/05/2010

Era por certo um homem, mas não tinha a macheza necessária para infligir um tiro à boca que o devorava; ao invés disso, queimou pelas vísceras o bom coração, na tentativa de iluminar o buraco em que se encontrava. Procurou então por uma escuridão que não lhe era inata, antes que o tempo o despertasse para a escuridão dos próprios olhos. Sem efeito. Dele o mundo continuaria a rir, enquanto Deus lhe dava uma esporrada bem no meio da cara.

Vai, Curíntia!

Publicado em Pensamentos por Shepones em 06/05/2010

E aí que ontem eu assisti o jogo na casa do meu pai, no Cangaíba, bairro nobre de São Paulo. Aquela zica toda em prol de um dia de justiça futebolística, velas pretas, figas, bodes, vinhos e galinhas (ops) atiradas ao redor do altar da secação são-paulina. Primaiada reunida, macumba consagrada, e vem o apito final. Euforia e gritos na garagem.

- CHUPA! CHUPA! CHUPA!
- GAMBÁ FEDIDO!
- MARGINAL!

Um coitado, cujo cheiro felizmente não foi notado, apareceu na laje de uma casa vizinha. Como estava em uma laje, creio ser desnecessário revelar qual o clube de sua preferência. Mais gritos:

- MANÉ, CHUPA!
- 100 ANOS SEM LIBERTADORES!
- FOFÔMENO!
- SE FODEU!

Não se pode dizer que o torcedor do Time da Marginal Sem Número estava calmo. Desceu freneticamente as escadas e veio pra rua num acesso de macheza zonalestiana. Seguiu-se:

- Aí mano, cê é forgado!
- Chupa.
- Tá tirando, otário, ontem não fiquei zoando o São Paulo!
- Porque o São Paulo ganhou.
- Cê fala agora porque tá com seus primos aí. Vou te trombar sozinho.
- Chupa.
- Cê é flamenguista, maluco?
- Não. Só não gosto do Corinthians.
- Seu cuzão, filhoda….

Ameaças à parte, a quinta-feira seguinte à festa urubu amanheceu feliz, ensolarada e sem nuvens. E aquele time lá, do torcedor estressado que se vangloria da tradição, da torcida e da putaqueopariudecócoras, continua destinado à irrelevância esportiva. Em retrospecto, é verdade, 100 anos é um período de tempo histórico muito curto.  Um dia a coisa vai. Vai, Curíntia.

Frilas

Publicado em Literatura por Shepones em 30/04/2010

Certa feita um grande amigo foi a uma casa de diversão na Rua Augusta. Conheceu uma rapariga, moça bem apessoada, loira, sul-africana. Engatou conversa em inglês fluente, descobrindo que a meretriz é estudante no Mackenzie, além de exercer a função de tradutora em horário comercial. As negociações avançaram, e lá se foi meu amigo para um quarto escuro com a puta internacional. Na primeira, pagou, como de praxe, mas sucedeu que, dias depois, este meu amigo logrou novos tentos sem custo algum: na zona norte, dir-se-ia que o picudo estava comendo de graça.

Veio então o Rocco de Santana gabar-se da história para os companheiros de faculdade, pessoas cuja profundidade filosófica não vai além das margens do rio Tamanduateí. E para quem, num arroubo de modéstia, esnobou o desempenho profissional da supracitada. “Enjoei”. Seguiu-se o diálogo:

- Ah, tá comendo a puta na faixa, cumedô?

- Ela não é puta.

Incredulidade na mesa. Até as garrafas de cerveja estranharam tamanho contorcionismo no holerith. Seria amor?

- Porra, claro que não. E ela só foi no puteiro umas três vezes.

- Então é puta.

- Não é. Se você é jornalista e faz um trabalho de publicidade eventualmente, não vira publicitário.

- Tendi. Ela só faz frila de puta.

- …

- Na próxima vê se não esquece de pedir CPF na nota.

Cinco minutos

Publicado em Pensamentos por Shepones em 26/04/2010

É engraçado como é fácil transformar um andar cabisbaixo em palavras. As obras mais líricas e poéticas, dizem, vêm da depressão de cada um de nós. Mas agora eu tô aqui, feliz e, com todo risco de ser um piegas estúpido, não sei bem como expressar isso. Penso em recorrer às minhas limitadas referências culturais. I’m so happy cause today I found my friends. Insuficiente. Procuro alguma citação do cinema, literatura ou congênere que me faça parecer inteligente.  Em vão. Apesar do paulocoelhismo que me assalta, estou certo de que jamais escreverei um livro. Não sei se é preciso, de qualquer maneira. É só felicidade, absorta, efêmera e talvez inexplicável.  Despretensiosa. Fica então meu desejo para que você também seja feliz e compartilhe isso. Nem que por alguns minutinhos.

Villa Country

Publicado em Pensamentos por Shepones em 16/04/2010

Quinta-feira iluminada. Depois de um dia de muito sexo, suor e samba – mentira, foi só trabalho mesmo – encontro com amigos para mais uma saída peralta. Especialmente inspirado devido à folga que teria no dia seguinte, também conhecido como hoje, redobrei meu empenho na ingestão da amarelinha. Saímos eu e dois amigos; despretensioso, sem autoestima e bambi que sou, aproveitei a oportunidade para estrear minha camisa do São Paulo recém adquirida.

A príncipio, fomos num bar da Augusta, ambiente razoável para o uso do manto sagrado. Depois, fui levado para um bar em frente ao Mackenzie, o que já traz em si algumas problemáticas: faculdade reacionária, música inadequada e uma pá de mina cansada se achando princesa só porque usa bota e salto.

Dentro do bar havia uma balada sertaneja. Meu deus, que merda. E eu, uma pedra, lá com aquela cara de panda, bêbado, com camisa de time de futebol, vendo um monte de patricinha sendo assediada por playboy a caráter em camisa de polo. Reitero aqui: não respeito quem usa camisa de polo, e respeito menos ainda quem usa aquelas com números gigantes nas costas. Vai jogar críquete no Paquistão, palhaço.

Felizmente, a apresentação dos cowboys de Higienópolis acabou cedo, e pudemo navegar por outros mares. Não menos turbulentos, por sinal. Pinheiros, Vila Madalena, Samaro, errantes como vira-latas brindávamos em latas, copos ou o que víssemos a nossa frente.

Pra mim, era o suficiente. Mas aí lembrei que tava com um amigo que é o maior xavequeiro do universo observável. O puto deu a linda idéia, e a coisa toda degringolou:

- Vamô cola na porta do Villa Country pra zoar as mina.

Embriagado e desprovido da minha propriedade anal, concordei. Fomos pra esbórnia de esporas. De antemão, já sabia que não ia flertar com ninguém na balada, primeiro porque era o VILLA COUNTRY, segundo porque eu sou um imbecil mesmo. Não sirvo pra isso, não adianta.

Aí cê já me visualiza com a camisa do São Paulo na porta da espelunca às quatro da manhã, aquele LUGANO 5 embaçando a visão do pessoal.

- Bambi do caralho!
- Vai tomar no cu, seu filho da puta!
- Santos, Santos!
- Viúva do Pelé, me chupa!
- Vai, Curíntia!
- Sem Libertadores, seu cuzão!

O que afastou meu lado Conan durante a bebedeira e me impediu de sair na mão foi o flerte moleque, mágico, cadenciado do meu amigo papeador. A pauta já tava pronta – ele colava nas minas sempre assim:

- Ô, cê tem a figurinha do Pirlo pra trocar comigo?

Evidente que, a depender do alvo, trocava-se o jogador.

- Quem tem a figurinha do Puyol?

Final de jogo, com ou sem álbum da Copa, todo mundo saiu no empate em zero a zero. A bebedeira passou, e meu outro amigo, desta vez o piloto – chupa, Rubinho! – me trouxe da Barra Funda até o Jardim São Paulo em 9 minutos. Vivos, observamos de longe a bola de feno passar pelo saloon dos paunocu.

Vai, São Paulo.

A classe operária vai ao paraíso

Publicado em Literatura, Pensamentos por Shepones em 12/04/2010

Nesta segunda tive um retorno proletariamente triunfante do trabalho. Meu sindicato não melhorou meu salário, não conseguiu antecipação do dissídio e nem aumentou o valor do meu vale refeição, até porque é semântica e tecnicamente impossível aumentar o valor de algo que você não possui. A União Soviética de 1945 descortinou-se pra mim no bumba Itaim-Santana, sentido zona norte.

Shepa, feliz e saltitante, em mais uma volta pra casa. Carregava sob meus braços, ainda mais serelepes, o fortuito e novíssimo álbum da Copa. Assim que adentrei o coletivo, esguiei me à esquerda, subi um degrau imaginário e sentei-me sobre um espaço vazio imediatamente atrás do primeiro banco para idosos, coisa que só quem pega esse tipo de busão consegue visualizar. A partir daquele momento mágico, estava instalado em meu trono suburbano.

Saquei as figurinhas do bolso da minha jaqueta, que é da Adidas, mas só por causa do Fidel.

Tenho preguiça e não sei contar, o que faz suficiente dizer que eram R$ 6 de figurinhas. Pra mim, um momento mágico – lembrei imediatamente dos meus tenros oito anos de idade, quando era apenas uma bolinha de cabelos (os quais possuía em quantidades justas) lisos quicando pelas ruas do Bancários, colecionando o álbum da Copa de 1994 e achando o Preud’homme o melhor goleiro do mundo (gordo, passei a infância como goleiro, óbvio).

Talvez seja por isso, pensando bem, que este foi um dia paradisíaco: pude lembrar de uma época em que eu NÃO trabalhava. Prossigamos.

Busão lotado é uma coisa trotskista: não une, só divide. Enquanto meus colegas de classe se espremiam uns contra os outros, fiquei lá, tranquilo, tranquilo,  colando figurinhas na maior inocência. De repente, passei a ouvir a voz de um tiozinho, e já saquei: esse aí é petista ou metalúrgico do ABC. Acertei a segunda.

O cara tava se derretendo em elogios ao nosso Grande Líder Lula Molusco, coisa que eu nunca havia visto de maneira tão caruda apesar do brutal apoio popular que este Brasilzão dá para ele. Do fundo do carro – o que depois das 17h00 equivale ao Jardim Europa do ônibus – pipocavam reclamações contra nosso advogado presidencial.

Que ligou o foda-se, aumentou o tom de voz e, tal qual um pregador evangélico da Praça Ramos, falou mais, e mais, e mais… Em determinado momento, ele começou a descer a lenha no Serra, no Kassab e a elogiar a Marta Suplicy, de maneira até mais efusiva que o próprio novededos.  Desta feita, ganhou meu coração.

Quando me dei conta, tava discutindo política com um metalúrgico aposentado da Volks que garantiu ser amigo do Lula em um busão lotado indo pra Santana ouvindo Megadeth no talo e colando figurinhas em meus plenos 24 anos uma idade socialmente inadequada para supramencionada prática.

O mundo da volta do trabalho é fascinante.

Vida louca

Publicado em Pensamentos por Shepones em 05/04/2010

A depressão quer me pegar, vou sair fora!, me grita lá de longe Mano Brown enquanto treto contra alguns pensamentos ruins na quebrada. Segunda-feira à tarde, caminhando sob a garoa fina entre a praça da Bandeira e o metrô São Bento, fui matutando, matutando, matutando, matutando, até que logrei transubstanciar toda essa abstração em algo mais concreto: não demorou e fui acometido por uma sensação de depressão profunda. Olhei pra mim mesmo e disse E AGORA?. Emprego, amigos, família, amor, futuro, dinheiro. Junte à instabilidade nisso tudo uma inércia de mil grau e pronto: seja bem-vindo ao meu Capão Redondo psicossocial. No extremo sul da zona sul tá tudo errado. E aqui na norte também. Vida louca.

Os campinhos lá dos Bancários

Publicado em Pensamentos por Shepones em 28/03/2010

Quem me conhece sabe que eu sou retardado por futebol. Sempre joguei muita bola – em termos quantitativos, claro, porque eu sou ruim pra cacete até hoje.

Gosto mais de jogar do que de acompanhar, na verdade. Tirando um intervalo pseudoideológico (‘futebol é alienação’ ZZZzzz…) de alguns anos na adolescência, nunca deixei de bater uma pelada sempre que possível.

O fato é que esconde-esconde, pega-pega e polícia e ladrão sempre ficaram em segundo plano na minha infância por conta do três-dentro-três-fora, da linha, do bobinho, do timinho de dois e de tudo quanto é tipo de brincadeira envolvendo uma bola de futebol.

Fui criado no bairro dos Bancários, zona norte. A opção preferencial na hora de bater um futi, portanto, eram as ruas. No meu caso, mais especificamente o portão da minha própria casa. Por conta disso, aliás, arrumei sérios entreveros com D. Encarnação, minha vó. Fica pra outro post.

Além das ruas, tinhamos lá nos Bancários dois campinhos principais: o da rua C, localizado em rua homônima; e o Beira-Rio, que fazia jus ao nome e às vezes sumia com a bola da molecada. Esses eram de terrão mesmo, coisa pra 10 em cada time, mas existiam também outros lugares menores adequados à prática futebolística.

Um deles era o Maracanbrejo, nos fundos dum edifício na rua principal; outro era o Gramadinho, que ficava nos fundos do Paul Hugão, a escola de ensino médio do bairro. Havia ainda o campinho da rua A, de terra, mas menorzinho.

Contávamos, por fim, com as quadras do Paul Hugon e do Gastão, a escola municipal. Não pude, porém, aproveitar nenhuma das duas, já que minha pandice infantil me impedia de pular com sucesso o muro dos supracitados estabelecimentos.

Faz 7 anos que não moro mais nos Bancários,  mas vou lá quase toda semana rever meus amigos. Mesmo assim, tem uma ou outra rua do bairro pela qual eu raramente passo. Há algumas semanas, porém, passei pela rua A, onde tinha aquele campinho.

Tinha. Agora tem um estacionamento.

Quando vi essa cena, fiquei deprimido na hora. Não sei quem decide acabar com espaços de lazer para construir estacionamentos. Mas é de uma insensibilidade impressionante. Horas depois, fui à praça do bairro, que hoje está infestada de nóinhas e playboys que se acham vidaloka. Confesso que não pude deixar de associar uma coisa a outra.

Há uns 15 anos o verbo ter, no passado, também se aplicou ao campinho da rua C. Motivo? Construíram uma porra de… estacionamento. Nesse interím, todos os lugares do bairro onde se jogava bola morreram de morte morrida, incluindo o suntuoso Beira-Rio, cuja mato era cortado pela própria criançada – que cresceu e foi trabalhar ou virou bandida.

Vendo tudo isso, só pude pensar que a noção de progresso da nossa classe média tá contribuindo pra dizimar o futebol das ruas de São Paulo. Todos terão carros e uma vaga para estacioná-los, mas pouca gente vai poder bater no peito e dizer: ‘joguei bola pra caralho e minha infância foi foda’.

Talvez um Nintendo Wii ou um Playstation 3 ajudem a amenizar a consciência dessa galera. Ou então toda a maconha e farinha que eles vierem a consumir na vida adulta pra relembrar de algo que eles não tiveram muita chance de viver e, mais do que isso, sentir.

De minha parte, posso dizer que não confio em gente que nunca jogou bola na rua ou no campinho do bairro.

Ao sol

Publicado em Literatura por Shepones em 23/03/2010

A leste havia um altar desnudado ante o sol, e por debaixo dos santos uma mulher de face indecifrável.  Escondia-se sob um véu branco de listras finas, transmitia tranquilidade a seus interlocutores, embora ocultasse também, e principalmente, a falta de coragem encrustada em seu viver. Intempestivamente, e não muito tempo depois, o sol parou de reluzir por vontade própria; do escuro, a mulher extraiu claridade ao acender uma vela para a fé que buscava dentro de seus próprios esconderijos. Fez-se o dia, e com ele um sopro de felicidade arejou até mesmo os mais inoportunos espíritos do coração.

Animadores de circo

Publicado em Pensamentos por Shepones em 14/03/2010
"Eu ouvindo James Brown, pá
Cheio de pose
Ela pergunta se eu tenho o quê?
GUNS N' ROZE?"

É, fui ao show do “new” Guns. E se você pretende ir qualquer dia, saiba que terá de aturar muita chatice para ouvir as canções que realmente valem a pena.

Tirando a homônima e Better, as músicas do Chinese Democracy são constrangedoras quando executadas ao vivo.

Quando chegar a vez das boas, seja November Rain, Patience ou Welcome to The Jungle, será uma boa experiência.

Seu cérebro, porém, certamente terá um tique involuntário:

- Volta, Slash…

Já fui em muitos shows, mas o de ontem se superou no quesito falta de ritmo. Excesso de paradas, solos enfadonhos, conversa jogada fora sem necessidade.

Brochante. Será que Axl Rose não se toca?

Talvez ele tenha chegado a um estágio tão doentio de autoengano que o impeça de dar satisfações a quem quer que seja.

A não ser pra ele mesmo.

Por que cuidar da própria voz se eu posso pagar para um monte de animadores de circo solarem enquanto dou uma cafungada no backstage?

Por que resolver brigas do passado com meus ex-companheiros de banda se eu posso ficar com o nome do grupo só para mim pela via judicial?

Por que aturar copos arremessados no palco se eu posso simplesmente quebrar o contrato por uma picuinha e encerrar o show logo na primeira música?

À certa altura, lembrei dum chefe espartano que tive anos atrás.

Trabalhava todos os dias com a mesma roupa, reclamava dos cortes de luz (por falta de pagamento) em seu apartamento e, melhor de tudo, não sabia ser chefe.

Mas o que mais me marcou quando trabalhamos juntos foi uma frase que, se não chama atenção pela profundidade, diz muito sobre o desapego que ele tinha do mundo.

- O ego é foda. Você tem que destruir seu ego pra ser feliz.

Ontem, quando fui ver o Guns,  não imaginei que fosse incorporar o psicanalista de boteco na hora de escrever estas mal ajambradas.

Impossível. Presenciar Axl Rose é praticamente um estágio no Pinel.

Da primeira a última música, tudo ali foi montado e construído para a baleia branca. Ele é o vocalista, tá velho e tem que segurar o tranco, alguém pode objetar.

Justo, desde que não afete a qualidade da apresentação.

Mas isso aconteceu ontem de uma tal maneira que até as piscinas do Parque Antártica perceberam. A cada interminável pausa entre as músicas, milhares bocejavam.

Noutros muitos momentos, a voz dele simplesmente não saía.

NÃO SAÍA!

Uma boa solução poderia ser um intercâmbio com Sebastian Bach. Esse, sim, manteve a dignidade e fez um show macho.

Ainda assim, Axl  logrou pelo menos um feito inédito. De tanta firula, fez este resenhista medíocre dormir em uma das músicas no final do show.

Ok, acordei logo depois, vi Paradise City e, mesmo sem ouvir voz nenhuma, foi lindo. Admito.

Mas não foi suficiente.

Quem foi senhor da razão ali foi o velho Frank Sinatra.

Depois do acender das luzes, fez um diagnóstico de Axl Rose que poucos poderiam ter feito com tamanha simplicidade.

- I did it my way…

Não diria que foram 72 R$ bem gastos por um espetáculo, mas certamente valeu pelo registro histórico. Nothing lasts forever…

Lá da árvore

Publicado em Literatura por Shepones em 04/03/2010

O homem atravessava dias e noites analisando o movimento sob seus olhos.  Não se sabia quem era, o que fazia exatamente, nem mesmo como lograra sobreviver em sua inquebrantável solidão, mas todos que por ali passavam acostumaram-se a serem por ele observados. Fitava a todos, indiscriminadamente: os olhos não os encarava, é claro, mas isso não lhe cessava a qualidade de poder extrair de quaisquer dos transeuntes detalhes inenarráveis de suas vidas. Não ligava para os jornais ou para as complicações mundanas vividas por aquelas pessoas.  Tampouco buscava condescendência ou aproximação. Vivia no cume de uma árvore. Lá do alto, dezenas, centenas, milhares de anos foram transpostos para um caderno de folhas beges e empoeiradas, onde desde tempos imemoriais registrava o resultado de suas ponderações.  Pelo que fora documentado, alguns comportamentos observados eram inatos,  ao passo em que outros foram surgindo ao longo do tempo. Havia ainda uma terceira categoria, cujos registros descreviam as outrora imponderáveis consequências das duas primeiras. Constatou o autor das mal-traçadas que os analisados careciam de empenho para solucioná-las. A estas, então, foram reservadas as últimas páginas do anedotário.

Essência

Publicado em Literatura por Shepones em 24/02/2010

Os cartazes fragmentados de um poste de esquina escondiam a fumaça que emanava do cigarro de Gabriel. Alternava entre tragadas e goles, donde tirava forças para não sucumbir ao calor que o subjugava. Não bebia, embora em momentos de menor razão aceitasse ingerir uma ou duas doses de qualquer porcaria que lhe viesse à frente.

Esperava por um homem que havia lhe prometido um novo trabalho; não sabia, entretanto, a identidade do misterioso empregador. O encontro, a ser realizado numa magrebina tarde de sábado, fora marcado por telefone; de pronto, houve empatia entre as vozes roucas e ríspidas dos dois lados da linha.

Gabriel apagou o cigarro, atirou o resto da bebida goela abaixo e prostrou-se novamente sobre a pilastra de concreto. Os ponteiros já haviam percorrido algumas dezenas de graus, e a impaciência crescia em ritmo semelhante.

“Gabriel”, cochichou-lhe em determinado momento um homem franzino de meia idade, calças pretas surradas assimilando o vermelho de sua camisa entreaberta. Ainda que a situação econômica do País não fosse das melhores, Gabriel não escondeu a perplexidade diante da inesperada oferta de trabalho.

“Não se preocupe”,  disse o homem. “É um bom emprego”.

Transcorreu somente um par de dias até que Gabriel passasse a exercer com naturalidade sua nova função. Embora seja difícil definir o escopo de atuação de nosso protagonista, não restam dúvidas sobre seu empenho e dedicação. Não tinha hora para entrar, nem para sair. Seu ofício também não dispunha de localização fixa. O mundo era seu escritório.

Ainda que inconscientemente, havia abandonado o entorno que o cercava. Foi esquecido pelos amigos, e deles também esquecia deliberadamente. A família o abandonara, e todos ao seu redor estranhavam aquela súbita mudança de postura perante a vida. Encarava os fatos com naturalidade, tamanha que poder-se-ia confundi-la com desdém.

“Estou amadurecendo”.

Apesar da carga, quase nunca era cobrado. Era como se trabalhasse por inércia. Desta forma, foi surpreendido quando o chefe solicitou uma reunião; antes disso, não havia tido uma conversa sequer com o benfazejo patrão. Marcaram de se encontrar naquela mesma esquina cinza. Cumprimentos e formalidades seladas, travou-se o seguinte diálogo:

- Preciso de você – disse o superior, trajando a mesmíssima combinação do primeiro encontro entre os dois.

- Para fazer o que, desta vez? – respondeu Gabriel.

- Você não entendeu – retrucou. – Preciso de você.

Em princípio, Gabriel não havia compreendido a semântica do pedido. Algumas frações de segundo à frente, porém, recebeu a devida explicação.

“Tenho de exigir-lhe uma contrapartida, e não estou a falar de resultados”, disse. Gabriel pôs-se a rir. Sem o menor franzido na testa, o homem prosseguiu tranquilamente. “Pois bem, você deve pagar em até dois dias. Pode ficar com dinheiro, te darei até mais, mas não esqueça destas minhas palavras”.

Gabriel voltou para casa sem saber como quitar sua dívida. “Que diabos ele quer com isso?”, perguntava a si mesmo. Tratava-se, por evidente, de uma equação errada, “um disparate”, já que havia trabalhado como um egípcio na consecução das missões que lhe foram outorgadas.

A esta altura, porém,  não tinha mais a quem recorrer para dirimir suas dúvidas ou pedir ajuda. O prazo dado pelo misterioso patrão estourou, o que foi prontamente ignorado pelo outrora dedicado funcionário. Intrigado, Gabriel não podia mais definir a própria essência.

Em realidade, já a perdera: enfim o pagamento estava feito.

Conaprole

Publicado em Pensamentos por Shepones em 23/02/2010

Pequenas felicidades cotidianas: encontrar cerveja uruguaia com desconto num corredor qualquer de supermercado. Norteña, sem vergonha e apátrida, a R$ 6,50. Sorriso no rosto e no bolso. Pequenas decepções cotidianas: conferir a nota da compra ao chegar em casa e descobrir-se cobrado pelo preço normal, um pila mais caro. Lady Gaga sings Bunda Face. Pequenas compensações cotidianas: tinha Patricia, a mina mais gostosa da América Latina – orgasmos etílicos a R$ 7,49. GRANDES TRAGÉDIAS DA HUMANIDADE: ir ao Wal-Mart da Vila Guilherme só para comprar um pote de doce de leite, e a iguaria em questão não ser comercializada no supracitado estabelecimento.

Porra. Meu filho vai mesmo nascer com cara de teta de vaca.

Fé olímpica

Publicado em Pensamentos por Shepones em 22/02/2010

Confesso que Jogos de Inverno sempre foram uma coisa meio burguesa pra mim, mas fiquei encantado com o que vi na noite desta segunda. Estava pra sair de casa, quando percebi que a TV transmitia uma reportagem sobre a prova de dança no gelo em Vancouver. Cadência, leveza e elasticidade em busca da sincronia perfeita. Uma das coisas mais bonitas que já vi.

Mas não é só o esporte em si que me chama a atenção nessas horas: é a humanidade. Coesão não é forte dessa raça maldita, convenhamos. Nas Olimpíadas, porém, esse aspecto é levado ao extremo: o mundo inteiro entra no clima da competição. E o mais foda é que não é uma disputa predatória – tá longe de ser um Argentina x Uruguai ou uma dividida entre Zidane e Materazzi.

Todos que estão ali dedicaram e dedicam suas vidas ao esporte, o que evidencia mais uma coisa raríssima hoje em dia: a fé. Um ateu não defenderia dogmas ou fé religiosa, mas sim a crença em um objetivo, numa meta, num ideal. Você tem que acreditar na vitória para buscá-la; do contrário, quem treinaria horas por dia durante anos pra conseguir uma porra duma medalha?

Pra mim, as Olimpíadas dão trégua aos maus sentimentos, mesmo que apenas durante os minutos em que você fica ali plantado em frente a TV. É um refresco para a esperança. Quem não se lembra da cerimônia de abertura dos Jogos de Pequim, quando, à certa altura, cantou-se:

-  Não é bom ter amigos vindo de tão longe?

Danem-se os niilistas, o centro, quem vive em cima do muro, mas a fé é fundamental. A fé no, e para o, ser humano.

Reine sobre mim

Publicado em Literatura por Shepones em 21/02/2010

O estômago era incinerado por visões insidiosas, desencadeadas pelo simples pensar. Não achou droga adequada para este tratamento. Descobriu, porém, remédio aprazível para as dores que lhe fizeram juras de amor: um par de fones de ouvido.

O que aprendi neste Carnaval

Publicado em Pensamentos por Shepones em 17/02/2010

Neste Carnaval aprendi algumas coisas. Aprendi a manter a calma em situações difíceis, e a fazer plantão de bom humor. Acho que no próximo volto ao normal. Aprendi que vodka pode causar situações vexatórias se você não se alimentar decentemente antes de beber. Também aprendi que é possível morrer e ressuscitar no terceiro dia. Aprendi a valorizar a mim mesmo (putz, esse trecho era exclusivo para a Capricho). Aprendi a gostar de um esporte fascinante: o Curling. Aprendi que a maior vítima de carrinhos mal dados sem caneleira é sua própria canela.  Aprendi a não subestimar o Ronaldinho Gaúcho. Aprendi a nunca mais pagar dezoito pilas por um suco de milho à beira da estrada, por mais delicioso que seja. Aprendi a ficar gostosa de barba, saia, top e gloss. Ah, sim: True Love Waits – boa Thom Yorke, aprendi essa com você. E aprendi a rir do Rebolation. Mas descobri que a melhor música da temporada não tem alma, nem coração. É. Até que foi um Carnaval bem didático.

Afasia

Publicado em Literatura por Shepones em 14/02/2010

A indecisão o demovia da ação, e o tornava mais e mais procrastinador à medida que seu já escasso tempo passava. Estava confuso quanto a seus desejos, e isso apronfudava-lhe a inércia de pensamento. Ainda mantia, por sorte, a fidelidade às próprias verdades, que o ajudavam a delinear esboços mal ajambrados de futuro. O presente não tinha lá muito sentido, e o passado era só uma lembrança afetuosa, a qual abraçava efusivamente em momentos de carência de objetivos. “Não sei”. Era assim que matutava seus dias e boa parte deles.

Folião

Publicado em Literatura por Shepones em 13/02/2010

Macarrão, um amontoado de discos, amor dobrado e Coca-Cola. A alegria está nas ruas, mas é numa casinha de subúrbio que vive a felicidade plena do Carnaval.

Mufasa, um sábio

Publicado em Literatura por Shepones em 11/02/2010

Filho de mãe solteira nasce e é criado em grande metrópole latino-americana, com auto-estima baixa e capital suficiente apenas para o fliperama. Recupera a confiança em si mesmo após ser vítima de bullying durante os anos na escola. Vai para o fundão. Passa o rodo, acaba com as espinhas, vê o time ser campeão mundial e conhece os integrantes de sua banda favorita no camarim depois de um show de 4 horas de duração. Conhece a mulher da sua vida, arruma um emprego onde ganhará o dobro do anterior – menos de 24h depois de ser demitido deste – e tem sua primeira amnésia alcóolica. Formado, resolve as pendências de uma vida familiar  burocrática e instável, supera as neuroses relacionadas à ausência do pai e dispõe de finanças suficientes para o busão e o táxi. Tem um filho, um matrimônio e compra uma casa no campo. Vê o Brasil se vingar do Uruguai, e não deixa de sorrir de soslaio com o gol de Messi sobre a Seleção na final de 2014, no Maracanã.  Assiste Into The Wild pela quinta vez e larga tudo em busca da completude interior. Volta mestrado em artesanatos de beira de estrada, e com um dente a menos. Vai ao dentista, monta uma banda de rock e viaja pelo mundo como se não houvesse terra sob o céu. Cresce os filhos, no plural, e ainda dá 3 por dia sem apelação. O socialismo não vem; o ego fora abolido. Aposenta-se, mas não deixa de jogar o futebol da madrugada com os netos. Ainda não aprendeu a tocar contrabaixo como deveria. Em compensação, passou a frequentar o Estádio do Morumbi duas vezes por semana após a inauguração do metrô mais próximo, em 2054.  Morre sob uma salva de palmas, entre amigos e pessoas amadas que creditar-lhe-iam a dignidade de espírito e a inabalável crença no ser humano.  De herança, uma coleção que já contabiliza 132 camisas de futebol, centenas de ingressos de shows de rock a que comparecera e os mais de 780 discos de vinil – todos da década de 90. O Corinthians, para felicidade além-vida, continua sem o título da Libertadores. Mesmo em pensamentos, a mulher ainda lhe faz cafunés no pescoço, enquanto cochicha juras de amor à espera do encontro final.

Indiferença

Publicado em Pensamentos por Shepones em 11/02/2010

É sempre muito fácil apontar o dedo na cara e classificar fulano ou ciclano como X ou Y. Maniqueísta não é um adjetivo que alguém gostaria de reivindicar para si, mas às vezes é preciso dar nome aos bois: a frieza e a indiferença são o câncer da alma humana. E aqui não se fala desses sentimentos como causadores de guerras, genocídios ou rinhas de galo: fala-se deles na nossa própria – perdão, Foucault – microfísica diária do poder. Mais especificamente, nas relações a dois. (Se você leva uma dessas a três ou mais, a torcida do Mengão te inveja). Pessoas com esses traços de personalidade são individualistas e inseguras. Esses usurpadores do amor tendem, por outro lado, a ver o mundo de uma maneira mais niilista e desapegada, pragmática, o que pode não ser ruim. (Tá, generalizar pega mal, mas isso aqui também não é nenhum estudo científico. Não amola!). Eu ainda prefiro me resignar ao meu próprio idealismo de filme da Sessão da Tarde.  Enfim: meu bloco de notas tá defecando pelo teclado ou a vontade de sodomizar esses meliantes tá escondida por aí? Fica o registro de um pensamento de fim de noite.

Direção

Publicado em Literatura por Shepones em 06/02/2010

Eddie Vedder estava certo. Não faça barbeiragens na vida: olhe sempre pelo retrovisor.

REM

Publicado em Literatura por Shepones em 03/02/2010

Tenho tido sonhos confusos. Deles, lembro sempre do começo e do meio. Muitos parecem presságios, enquanto outros se assemelham a um passado não muito distante. Será o presente o fim? Tenho me esforçado em acordar animado e bem disposto, embora a realidade teime em antagonizar minha existência madrugada a dentro.  Hmmm. Vou ali pegar um copo de suco de maracujá. Voltando.  Sonhos são como uma amarração em nossas vidas;  sonhar pode ser uma atividade despretensiosamente improdutiva, ainda mais se você não possuir uma capacidade fordista de materializar imaginações. Excesso de pragmático, cinismo, amargura? É possível, mas não invalida a força do argumento. Eu também sonho, mas não escondo minha paralisia sob abstrações de nenhuma sorte. Ao fim e ao cabo, a quem se quer enganar? Deixa o sonho quieto lá. Não fosse ele, o homem não teria em que se escorar para justificar a própria nulidade diante do mundo.

Quer suco?

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