PM, ocupação, USP, sei lá como se escreve
Todo mundo já falou a merda que quis sobre a ocupação, então agora é minha vez. Vamos lá: tudo começa com uma premissa muitíssimo errada, a de que você é um reacionário careta se é contra a maldita ocupação. Isso, além de desonesto e burro, é contraproducente, e é justamente por isso que a ocupação foi tão criticada (e é, também por mim) desde o começo, inclusive por muita gente de esquerda.
É claro que existem inúmeros problemas na USP (instalações precárias, baixos salários, falta de moradia, etc) e lutar pela correção de todos eles é direito, quiçá dever, dos estudantes. Mas voltemos no tempo: o que desencadeou a ocupação?
Três alunos fumando maconha. Ou seja, na prática, a luta começou com a opinião pública perdida. E não adianta dar de ombros para isso, amigo: o mundo não é o tipo ideal onde quem grita mais alto ganha com a ajuda de Trotsky Vindo à Cavalo.
Ganha quem for mais esperto e convencer a maioria.
Nesse ínterim, a discussão tomou dois sub-caminhos. O moralista, maconheiros x caretas. Eu, que nunca fumei um cigarro na vida mas comprarei até seda pros meus filhos, cheguei a ler alguém insinuando que quem não usa nenhum tipo de droga não é rebelde o suficiente pra ser de esquerda. Hahahaha.
Teve também o lance da PM no campus. Se queremos democracia, a democracia tem que valer para o bem e para o mal, e a maioria ali no campus quer a presença da PM por N motivos que já foram expostos à exaustão. A PM, desnecessário dizer, faz parte da democracia – eles desocuparam o local com mandado judicial.
“Ah, fumar maconha não é crime”. Não é, mas a PM tá no papel dela, meu chegado, infelizmente. Ponto. Não adianta tirar a autoridade do Estado quando convém. Quer dizer, até adianta, e essa avaliação subjetiva dá sim margem pra discussão, mas a ocupação nesse contexto foi, pra mim, um erro também sob esse ponto de vista.
Bom. Daí que os alunos decidiram protestar contra a prisão (e depois deram um golpe ao não acatarem a vontade da maioria e manterem a ocupação) ocupando o prédio da reitoria. Que existam – e existem, como já disse – mil razões para se protestar, não me parece inteligente e politicamente sagaz ocupar um prédio da universidade a partir da prisão de, repito, três alunos fumando maconha.
“Ah, faculdade é lugar para subverter”. Sim, também acho. Sou a favor da desobediência civil em determinadas circunstâncias (é na hora de definir qual delas são apropriadas que dá merda, como já disse). Mas não dá pra ser a favor de um ato de desobediência civil TÃO MAL CONTEXTUALIZADO.
Ontem mesmo (segunda, dia 7 de novembro), foram divulgados dados informando que o número de alunos nas universidades federais DOBROU em 10 anos. Sem contar o ProUni.
Ou seja, Dona Maria tá toda feliz com o filho saindo do Capão e do Eliza Maria todo dia pra estudar na Uninove. E o aluno da USP – que em sua grande maioria, sim, veio de colégio particular - ocupando a FFLCH. Dona Maria vê o filho dando um puta corre, liga a TV, vê a prisão dos manos fumando maconha e depois a ocupação. O que a Dona Maria vai pensar e comentar com os vizinhos?
Pois é. Não precisa fazer FFLCH pra entender isso.
Aí vira a história do mentiroso. O cara mente uma vez, você acredita. Mente a segunda, você acredita. Na terceira, você não acredita de antemão e ele tava falando a verdade. É o que acaba de acontecer com a credibilidade do movimento estudantil. Uma pena.
Só um detalhe, técnico mesmo, mas que faz toda diferença.
Fumar maconha é crime sim. A polícia pode (e deve) deter o sujeito, levar para a delegacia, lavrar o Termo Circunstanciado (TC) e depois libera. O criminoso responde processo, a única coisa é que se for condenado a pena é de advertência ou prestação de serviços comunitários (se for reincidente) – com qualquer outro crime de menor potencial ofensivo.