REM
Tenho tido sonhos confusos. Deles, lembro sempre do começo e do meio. Muitos parecem presságios, enquanto outros se assemelham a um passado não muito distante. Será o presente o fim? Tenho me esforçado em acordar animado e bem disposto, embora a realidade teime em antagonizar minha existência madrugada a dentro. Hmmm. Vou ali pegar um copo de suco de maracujá. Voltando. Sonhos são como uma amarração em nossas vidas; sonhar pode ser uma atividade despretensiosamente improdutiva, ainda mais se você não possuir uma capacidade fordista de materializar imaginações. Excesso de pragmático, cinismo, amargura? É possível, mas não invalida a força do argumento. Eu também sonho, mas não escondo minha paralisia sob abstrações de nenhuma sorte. Ao fim e ao cabo, a quem se quer enganar? Deixa o sonho quieto lá. Não fosse ele, o homem não teria em que se escorar para justificar a própria nulidade diante do mundo.
Quer suco?
Reconforto
As barras de ferro empesteadas pela fuligem garantiam ao corredor estreito do veículo alguma familiaridade. Cachorros, pulgas e pães amanhecidos eram a única companhia deste homem, cuja barba por fazer completara algumas décadas não faz muito tempo. Vivia com sete cachorros e, ainda assim, lograra manter a mais militar higiene no local.
A catraca lhe servia de hall de entrada, e as portas sem pressão eram seu “seja bem vindo!” às improváveis visitas que eventualmente lhe davam sinal – geralmente assistentes sociais, papeleiros ou a carrocinha. A moradia ficava em distrito acessível, porém ermo durante a noite; um lampião rústico, furtado duma lixeira nas cercanias, era sua defesa contra a escuridão que se impunha.
Numa terça-feira que não destoava de outra qualquer, este homem estranhou a ausência do quinto de seus cães, um vira-lata mulambento de pelagem amarronzada, irregular e esburacada. Aflito, sentou-se num dos bancos da composição, acendou um cigarro – comprava-os sempre a granel – e passou a refletir. Ficou nisto por pouco tempo, pois seria ingenuidade ou má-fé imaginar que a auto-crítica consista exercício saudável.
O quinto voltou, juntando-se aos outros seis. O homem apagou o cigarro, alienou-se e expulsou a ansiedade que lhe acometia. Como não necessitasse de sentir profundamente, contentou-se em afagar sua pequena matilha, num gesto de compreensão incomum entre seres mais objetivos.
Entreato
Estavam juntos sob sol, chuva ou cataclisma de qualquer natureza. Imiscuiram-se em amor, pois tinham fé um noutro. Um ateu de verdade não pode amar, donde não haveria cegueira a sustentar tamanha luz. Minutos, horas, dias, semanas, meses, não mais que um solstício de plenitude, mutualidades e recíprocas. O resto, foda-se, quem liga? Pois não tardou e ligou; muito embora não tenha havido hecatombe climática de nenhuma espécie, registraram-se sismos profundos. Nestas horas, sabe-se, é impossível distinguir o bem do mal, cujas propriedades variam de acordo com a ocasião. O cinza e o quarenta também rarearam, e com isto nunca mais se teve notícia do bom senso. Quebrou-se, enfim, e tomaram direções opostas. Os dedos nus por certo sentiram falta do roçar, da cumplicidade e de umidades várias, nutridas pela pureza de quem um dia, imprevisivelmente, fora responsável pelo intempestivo desmonte.
O de sempre
Peso, atrofia, procrastinação, anomia e imobilização. Sono, lentidão, entropia e anomia. Numa só palavra, preguiça.
Estática
João estava entediado. “O que vai acontecer agora”, perguntava a si mesmo, de modo que seus interlocutares identificavam na fala um distanciamento deliberado, comum naqueles que preferem atribuir ao trabalho do acaso a obra do próprio destino. João não acreditava em destino; era um materialista, ao menos da boca pra fora, e considerava a metafísica inconcebível, por mais física que fosse. Principiou ter pensamentos ruins que nunca lhe houvera ocorrido. Além disso sabia que não deveria dramatizar a situação, embora com frequência tivesse vontade de criar um novo mundo, como quem reseta um videogame. Acreditava no ser humano. O pão e o teto eram compartilhados com a família, cuja convivência resultava mais de pragmatismo que de sentimentos cristãos propriamente ditos. Tinha amigos, mulheres, patrimônio e um papagaio, mas não achava o suficiente. E não era.
Depois de anos, sentia-se, pela primeira vez, irremediavelmente sozinho e frustrado, como quem não tivesse um norte para chamar de seu. “Vai ser sempre assim”, resmungava, com uma mistura de resignação e aflição. João, por evidente, não podia previa o futuro. Ruminou, sentiu, chorou, matutou, optou mais uma vez por ignorar. Lá fora o cinza das ruas o aguardava para outra caminhada.
Chuva de verão
Nas ruas uma chuva espessa, vilinha velha e aconchegante, sem o prevísivel barulho das crianças correndo, gritando, jogando a maldita bola típica do mês de janeiro. A janela branca entreaberta, madeira carcomida, abafava a solidão e o embaraço que emanavam do lugar; num canto, ouvia remanescências de sílabas, vozes distantes, quiproquós alheios, mas não emitia juízo sobre estes últimos. Estava espalhado sobre uma cadeira desconfortável, enquanto tentava ajustá-la a sua altura. Também lutava contra pensamentos imerecidos. Chovia mais, e não haveria como prever seu fim. Não é questão de justiça, tampouco de mérito, logo as más ideias permaneceram esfoliando sua paz. Parou para pensar, e isto lhe reforçou ainda mais a inquietude de espírito. Desceu, sacou um copo em cuja cavidade afundou-se de água geladíssima, e regressou ao quarto onde ficou por tanto tempo, sem saber-se vivo ou morto. Na mesma. No reflexo das gotas a molecada chutava, “comigo não morreu”, “próximo”, “toca porra”; do meio das nuvens se foi o cinza em detrimento do azul e o sol principou assentar-se, e de longe foi possível sentir o bater daquelas ancas roídas de floresta. A chuva findou, e ouviu-se também um salto. Desprovido da essência, o corpo nunca fora encontrado. A alma, dizem, continua por aí, sem destino, como um andarilho lutando contra seu próprio limbo de verão.
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