Aqui estou mais um dia.

Enola \ Alone

Posted in Uncategorized by Shepones on 21/11/2014

Não é prudente desgarrar do leme dos pensamentos por um instante sequer, e mesmo assim nada assegura qualquer domínio sobre as águas. Pressupõe-se algum controle, aquela sensação do oceano requebrando com a volúpia de um quadril, lento e suave, o idealismo dos marujos de apartamento. Mas a natureza é outra, e em algum momento a onda inexorável abrirá sua cabeça ao meio sem aviso prévio. A ansiedade subjuga a mente como o mar a um barco. É aquele buraquinho remendado, uma tensão permanente que varia conforme as chuvas, mas que ainda assim é perene. Aos primeiros pingos, a ansiedade desperta em sua plenitude, de modo que a ausência de instrumentos de orientação dificulta prever se haverá ou não uma tempestade de fato. O ansioso sabe que abandonar o navio não é uma opção, muito embora flerte com a alternativa diuturnamente, de maneira discreta, para não abalar a moral de sua tripulação. Ele busca antes de mais nada a calmaria, um céu azul sem nuvens para enxergar o horizonte com clareza e fincar bandeira onde melhor lhe aprouver.  A tranquilidade não é apenas inveja para o ansioso: ela é fundamentalmente uma dúvida. Ele a conhece como um capitão navega em asfaltos. Para o ansioso, a paz de espírito é um sonho – e a ausência de preocupações, uma utopia.

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Homem da cândida

Posted in Uncategorized by Shepones on 04/07/2014

Guardo lembranças da cândida, uma menos voluptuosa, não a Maria Fernanda, uma pena, mas sim o artigo de primeira necessidade. Talvez já tenham criado um substituto mais sofisticado, uma máquina que embranqueça em três minutos, cloro gourmet, o Michael Jackson dos alvejantes, o fato é que, para além de toda sua relevância sócio-cultural nas cidades brasileiras, a cândida teve lá seu papel no desenvolvimento psicossocial das crianças e adolescentes que choraram a execução do amarelinho por Cannigia em 1990 –  eu, por exemplo. O escritor Miltom Hatoum tem uma crônica chamada ‘Lembrança do meu primeiro medo’, e o dele era o medo do rio, coitado, quase se cagou enquanto atravessava um pontezinha qualquer lá na Amazônia e fitou a imensidão de água marrom abaixo dos próprios pés. Na São Paulo do Lazaroni a gente não tem um rio desse tamanho, o Tietê, putz, esse aí faz a molecada é cair na gargalhada – mas em São Paulo tinha o homem da cândida. Era um horror, uma coisa genuinamente assustadora, cu na mão mesmo: molecada lá jogando linha, três dentro-três fora, taco, enquanto o horizonte anunciava aquela kombi carcomida, alto-falante oxidado e entupido pela rouquidão da voz do demônio anunciando um fim prematuro. ‘Olha a cândida’. ‘Olha a cândida, freguesa’. ‘Olha cândida’. Balbuciava a primeira sílaba do ‘olha’ e eu já tava chorando enlutado pela ‘cândida’, correndo desesperado atrás da mãe, que era o Deus possível na época.  Não que eu tenha me transformado num adulto sujinho, juro que não!, mas é que essa coisa de limpeza total, tinindo, branquinho, branquinho, sempre me pareceu coisa de maluco com transtorno obsessivo compulsivo, de quem que não admite nada fora do lugar. De quem não admite uma sujeirinha lá dentro, nada que te transforme num Cascão existencial, não, mas que te lembre que sempre há algo pra ser lavado – pode ser o hoje, o eu, os ontens, nosso reflexo no outro. O homem da cândida foi meu primeiro medo.

Barragens

Posted in Uncategorized by Shepones on 24/06/2014

Há quem tenha se acostumado às vitórias, e para esses sentir o desenrolar de uma derrota equivale a um afogamento, um assombro não consumado que eterniza a falta de ar nos pulmões da ansiedade. O perder causa uma dor paradoxal, na medida em que se deixa afetar menos por ele do que pelo seu reconhecimento, muito embora essa admissão seja necessária para reviver pequenas glórias mundanas. Não se trata de um perda efetiva,  súbita, não é nada disso, mas sim de uma perda de si mesmo, crônica, palpável, desesperadora como uma garganta comprimida pela asma na solidão de um banho frio.  Você já perdeu? Eu perdi e sei disso. Eu sei, sei mesmo, sinto a derrota me estapeando a cara no café da manhã, me violentando no escritório e sodomizando minha paz antes de dormir, mas sou teimoso, burro, uma pedra na cachoeira esperando que a correnteza pare de desabar sobre mim para que eu me livre de todo o lodo impregnado. Eu perdi, sim, sou a derrota incorporada num discurso que a antevia há décadas e que agora não tem mais por onde vazar, um rio de sonhos obstruído pelas barragens do medo.  O fato é que a correnteza nunca vai parar, e não faço a mais puta ideia de como proceder pra mudar o curso da água que está prestes a encher as minhas narinas. Eu estou perdido, e não sei nadar.

Luis Sérgio Person

Posted in Uncategorized by Shepones on 16/06/2014

Caminhando sem muita direção, chutando umas pedrinhas, desviando dos carros que querem te atropelar enquanto você só tenta fazer aquele golzinho na trave de pedra e se consagrar pros teus amiguinhos.  Crescer na rua não deixa de ser um prenúncio. Nem sempre é possível dominá-la: enquanto uns fazem dela um irmão mais novo cheio de cumplicidade inocente, outros fingem que ela não existe, e fogem como de um pai que se impõe pela violência do medo. São centenas de futuros consubstanciados em 300 metros de paralelepípedos e cimento: os boleiros, o mano do skate, o pichador, o que era tudo isso, o polícia, a velha que taca água na criançada, a viúva fofoqueira, o crente, o católico-passador-de-imagem-de-santa-de-casa-em-casa, o católico-passador-de-imagem-de-santa-de-casa-em-casa que xingava a criançada de favelada, a vizinha gostosa lavando a calçada de shortinho jeans, o retirante, o pedreiro que não parava em casa, o playboy metido à surfista, o maconheiro, os angolanos, os baianos, o bêbado louquinho que sumiu e ninguém mais ouviu falar.  A rua forja o eu a partir do reflexo das silhuetas no calor do asfalto – ela é ao mesmo tempo espelho e destino, destino incerto e duvidoso por ceder pouco a pouco seu espaço para a indiferença. Uma rua vazia é um clarão na mata das almas, posto que ela é o centro da humanidade, o espaço onde julgamos e somos julgados, onde admiramos e rejeitamos, onde vivemos e morremos por instantes sob o olhar de quem nunca vimos. A rua é humana, e por isso há também que dela fuja, como se o outro fosse um fardo muito pesado, fruto da incapacidade de reconhecermos nossa essência na diferença.  Há, porém, a certeza de que a rua estará lá, sim, ela estará lá daqui a 10, 30, 100 anos, talvez com uns buracos a mais, quem sabe com postes a menos na calçada, por que não?, mas estará lá,  para caminharmos sobre o seu piche seco e nos dar a chance de cumprimentar de novo aqueles velhos vizinhos do imponderável. Pela rua vivemos, e na sua ausência invariavelmente deixaremos de ser.

Querer

Posted in Uncategorized by Shepones on 14/06/2014

Tanta gente querendo. Querendo ter a melhor vida de todas, querendo viver conto de fadas, querendo a Europa, a Ásia, querendo mais 24 territórios a sua escolha, querendo ser o melhor profissional do mundo, querendo o melhor parceiro, querendo viver sonhos e transformá-los em realidade. Eu também quero. Mas sabe o que eu também quero? Que alguém fale a verdade. Que diga que somos todos peões num tabuleiro com meia dúzia de reis e rainhas, que não vamos passar do Guarujá, que seremos cornos, que vamos ser pais divorciados e ausentes, meros apertadores de botão displicentes em empregos medíocres. Talvez querer menos seja uma saída.

Arrebatamento

Posted in Uncategorized by Shepones on 14/06/2014

Não depende de quanto dinheiro você tem, do futuro que te espera, do passado que te sustenta. Chega uma hora que a repetição do presente faz a gente -você, eu, todos nós- implorar pelo Arrebatamento. Uma catarse, uma epifania, uma visão iluminada que vai engolir tudo que passou e te mostrar uma porta pro céu, aquele céu que você acha que merece que mais que todo mundo a sua volta. Mas… sempre falta aquele ‘e se’ – aquele ‘e se’ que jamais chegará. Nunca, em hipótese alguma. Desiste. O que sobra, então? Adaptação, aquela adaptação bem escondida numa resignação travestida de maturidade.

Bebamos, amigos

Posted in Uncategorized by Shepones on 13/06/2014

Beber sozinho é dividir o eu consigo mesmo. A bebida é uma grande amiga da solidão. No bar, não: estamos nus diante do outro e temos com ele o objetivo comum de compartilhar. De uma escolha bem feita depende a catarse microcósmica que enche uma vida de memórias e carinhos; de uma escolha mal feita, apenas a ressaca que cura pelo esquecimento. A leveza da bebedeira traz consigo o fardo pesado da companhia. As histórias contadas por todos os copos americanos que passam por nossas vidas, as emoções, merdas, erros e acertos. A cada dia que passa, uma latinha a mais se perde no fundo na geladeira, tornando a mesinha na calçada ainda mais irresistível. É no boteco que a realidade se torna inexorável, e é no boteco que a finitude nos iguala e nos aproxima.

São Paulo

Posted in Uncategorized by Shepones on 13/06/2014

Há muitos clichês sobre São Paulo. Acolhedora, diversa, cidade que nunca dorme. Bobagem. Talvez ‘locomotiva do Brasil’ seja mais adequado, afinal o trem paulistano fatalmente passa por cima do Brasil quando ele está (desculpem, não resisti) entrando nos trilhos. Há ainda outro clichê segundo o qual São Paulo é uma cidade conservadora, o que também é impreciso. A verdade, porém, precisa ser dita. E a verdade é: São Paulo é uma cidade provinciana. 

Nós, paulistanos, nos escondemos atrás de todos os clichês que nos interessam para disfarçar esse dado crítico do nosso ethos: somos caipiras que não aceitam a metrópole, irmãos de fraternidade inexistente. Não há acolhimento possível na Rota. Não há diversidade no quarto de empregada. Há um sono profundo nos bares que fecham à meia-noite. O cosmopolitismo de São Paulo é o cosmopolitismo dos turistas que não conhecem a própria cidade. 

O paulistano é um Urtigão que faz do carro, escopeta. 

São Paulo é uma cidade em constante crise de identidade, mas cuja própria identidade está em disputa. Pergunte a qualquer paulistano fora do centro expandido e você notará uma ansiedade de reconhecimento – afinal, o que é o bairrismo senão um movimento de autoafirmação? 

São Paulo não é a São Paulo do ‘Ibira’, não é a São Paulo do Racionais, não é a São Paulo da ‘vila’ ou do Clube Paulistano. São Paulo não é só a cidade que sai na Revista São Paulo aos domingos e nos perdigotos do Datena de segunda à sexta. São Paulo é também a cidade do Horto Florestal; do Jaraguá, da Igreja da Penha, da capela de São Miguel e da Praça do Forró; do campinho de terra em Cidade Tiradentes, do escadão do Eliza Maria; São Paulo é a cidade dos sobradinhos de Santana, do finado Tramway, dos condomínios na Raposo, do Tiquatira, do Jardim Botânico, dos coqueiros da Sabará, das chácaras com ônibus na porta na Cantareira, do Clube Espéria. 

Falar mal da própria cidade é uma atividade recreativa comum entre os paulistanos de todos os cantos da cidade. Nem é preciso entrar no mérito da beleza. Todos já fomos felizes com o(a) feinho(a) gente fina. Mas como uma cidade concretada sobre um fundo de vale e sobre várzeas de rios poderia dar certo, afinal? 

Até que acabou dando bem certo, se for ver. 

Uma vilinha irrelevante que se tornou uma das maiores cidades do mundo. Uma cidade que -sejamos honestos- acolheu, sim, milhões de trabalhadores do Brasil e do mundo em um espaço curtíssimo de tempo. Uma cidade que diante de sua história e circunstâncias tem uma organização invejável (pense em Nova Delhi ou Lagos, por exemplo) e uma oferta cultural imensa, apesar de todos os seus problemas. Pouquíssimas cidades do planeta enfrentariam os problemas que São Paulo enfrentou com tamanha maestria. Guerra contra a Federação; falta de indústrias; migração de massas; uma elite conservadoríssima. Historicamente, São Paulo é um milagre. 

Esse talvez seja o traço mais marcante da nossa identidade. O paulistano é também a maior mulher de malandro do Brasil. 

Os laços que criamos na cidade se confundem com ela própria e é isso que nos enraíza aqui. A casa é onde o coração está. São Paulo já é a cidade dos pequenos amores, dos amigos que saem juntos pra se divertir em qualquer biboca (mas só até à meia-noite!), dos namorados de mãos dadas na bosta do shopping ou na Praça Pôr do Sol. 

Mas… falta a integração.

São Paulo precisa ser a cidade onde o mooquense tenha orgulho do Pari e não ache aquilo um ‘antro’ de bolivianos. Onde o cidadão que mora em Pinheiros saiba apontar a Vila Medeiros no mapa e não ache aquilo ‘o fim do mundo’. Um orgulho real, vivido, frequentado – e não de páginas de jornais. Onde o velhinho da Vila Maria não tenha no imaginário sobre o Capão Redondo cenas da guerra civil em Angola. Onde todos se orgulhem de todas as partes da cidade. Não há amor fora da empatia. Não há cidade fora da integração. 

Por mais que o malandro me bata, eu ainda acredito no afago dele.

“Beleza, pai”

Posted in Uncategorized by Shepones on 13/06/2014

Olha pra dentro e te dá um significado”. Isso foi um negócio bonito que meu pai me ensinou: olhar pra dentro. É bom porque rasga teu ego mais imundo, ainda que a luz incendeie e sempre acabe transformando a espiada num soslaio no mundo ao teu redor. Isso, aquilo, aquilo outro, todos contra todos, sempre um desgraçado tentando descobrir um jeito dinâmico e arrojado pra te foder e você lá, uma pedra na Mata Atlântica ainda cheia de terra fofa e molhada, intocável, resistiu aos índios, aos bandeirantes, ao Prestes Maia, à porra da Odebrecht e até mesmo -veja você!- à autocrítica. Às vezes o coração cansa de procurar e verga em desgosto – o problema é que nunca dá pra saber se o desgosto é de mim mesmo ou do outro. Noutras ocasiões mais efêmeras, bate uma epifania que deixa saudade rapidinho e tu chora de felicidade, como se a lágrima fosse um agradecimento pela vida que pulsa no teu colo. O ponto é que eu pensei, penso, pensá-lo-ei com e sem mesóclise até meu cérebro pifar, pra caralho mesmo, e nunca encontrei e tenho certeza que jamais encontrarei esse maldito significado que meu pai pediu pra eu futucar. Está lá fora ou aqui dentro? Será que deixei na 5ª série A no Gastão Moutinho? No primeiro esporro profissional (profissional pela maestria de quem deu e pela incompetência de quem recebeu)? Numa bota de uma mulher que hoje eu desdenho por pura inveja do filhodaputa que roubou ela de mim? Não sei. Lição dois. “Todo homem deve se comprometer com alguma coisa”. Outra coisa realmente tocante e sensível que meu pai disse pra mim. Claro que o velho jamais verbalizou isso, óbvio, evidente, talvez nunca tenha sequer pensado uma coisa dessas, mas de todo modo é uma ideia atraente que gosto de passar adiante como se fosse um ensinamento de cima pra baixo, de um velho magnânimo prum moleque cabaço que precisa de alguma orientação pra não fazer besteira. Quem nunca quis corrigir as próprias merdas fingindo sabedoria pra exportação? Não precisa se comprometer especificamente com mulher, com o Flamengo, com a Mocidade Alegre, com o socialismo científico, com nada disso – pode se comprometer até com tua coleção de figurinhas, mas tem que se comprometer. Compromisso é paixão e mostra que você tá vivo, ele disse (não, não disse). Ainda não entendi bem qual o meu destino para além do amor próprio e por isso sigo buscando uma alternativa a esse flagelo pós-soviético a que uns chamam de terapia, outros de reflexão. Tateia o céu, coça as pálpebras, franze a testa e pensa como se fosse a morte da bezerrinha, coitada, mas dá seus pulos pra arranjar uma porra de significado pra existência e se comprometa com ele. (Na verdade, verdade verdadeira mesmo, também não tive pai – pra fugir de mim mesmo, tô apenas idealizando o que eu gostaria que ele tivesse me dito). Pois bem. “Beleza, pai”.

Alagoas

Posted in Uncategorized by Shepones on 13/06/2014

É um dia cinza incomum, com uma preguiçosa chuva rala, o que provavelmente desperta a velha ao lado. Seu corpo franzino não para de se mover, esticando o pescoço frágil em todas as direções – não sei bem se por curiosidade ou inquietude. A velha guarda um sorriso tímido que nunca se revela por completo, talvez por não ter dentes. O coque branco firme e as rugas beges e pronunciadas denunciam a idade, embora seja difícil especular – dizem que o sol encurta a vida nestas terras. Falta pouco para a divisa de Alagoas com Pernambuco. O corredor estreito do ônibus tem uma movimentação ininterrupta, com passageiros de tipos variados, a maioria carregando sacolas pesadas e volumosas, alguns com relógios dourados e óculos pirateados, outros falando sem parar. Há um vendedor de água, passageiros de pé e até mesmo um fiscal de linha, o que parece um pouco exagerado diante das pouco mais de três horas que separam Maceió de Ipojuca. A velha observa tudo atenta, mas pode ser apenas indiferença ou ignorância, por que não?, esforçando os olhos miúdos e negros através d’água que escorre pela janela: palmeiras, casinhas sem reboco, taipas, uma pletora de tijolos avermelhados, alguns sobrados com cercas elétricas, quase nenhum asfalto e bares com anúncios de Pitu e Coca-Cola. A velha usa uma sandália gasta e um vestido florido esverdeado de algodão barato, que pode muito bem ter sido colhido por ela mesma em algum passado não muito distante. Será que ela teve uma vida sofrida? Seus filhos se formaram? Ela chegou a ter filhos? Ela não deve ter ventilador em casa nesse calor demoníaco, não? Ensaio puxar assunto com a velha, mas logo desisto – não temos nada em comum, a não ser nosso destino. A chuva aperta, e rapidamente se transforma num toró que cega a todos da paisagem lá fora.

Vassourada

Posted in Uncategorized by Shepones on 13/06/2014

O futuro refletido num maço de cigarros amassado à beira de uma sarjeta de pedra cinza. Era só mais um maço escarrado e desprezado. Ignorava que o pacote, vivido, tinha história própria: passara por diversas bocas e lábios, das mais finas e macias às mais grossas e carnudas, desdentadas, malcheirosas, podres e delicadas. Pegou o embrulho e enfiou no bolso como se quisesse incorporar um destino desconhecido. Seguiu em linha reta esticando sua vassoura pra lá e pra cá, num vai e vem sutil, enquanto o maço se amontoalhava naquele saco de pano, acostumado às indiferenças – sabia que era só um maço e de certo modo admirava a maneira como a própria insignificância o situava num mundo repleto de tabacos e alcatrões. Naquele bolso quente, foi um maço feliz.

Estiagem

Posted in Uncategorized by Shepones on 13/06/2014

Faz uns dias que não chove. Aqui por essas bandas a seca só traz fome, dor e desespero. As árvores ficam secas e os galhos quebram à menor pressão, evocando destruições distantes que forjaram a identidade do nosso povo. Às vezes chega alguém com um balde oxidado trazendo a água de algum vilarejo próximo, nem sempre a água é boa, pode estar contaminada, sim, mas também pode ser propriedade de alguém que não a deseja compartilhar, seja por medo ou prudência. O desconhecido resseca as pessoas, há pouca água pra muita sede e não tem quem se disponha a cavar um buraco pra trazer a água lá de dentro da terra, bem fundo, com a gana de quem procura furar o último poço de petróleo da Arábia. O fato é que a mesma água que alenta os calos, enruga os dedos. Nosso povo não sabe ao certo se quer saciar a própria sede e viver, não: flertamos com a escassez pra dar algum sentido à bonança que nunca chega. Mas um dia, ah, um dia vai chover – e vai chover incessantemente. E nesse dia, nosso povo vai comemorar afogando a cabeça dos nossos inimigos em lagos fartos que em breve voltarão a morrer.

Respire

Posted in Literatura by Shepones on 13/06/2014

Tanto ar jogado para o alto e não há espaço para erguer a espinha e sentir o entra e sai dos nossos pulmões. Cada dia mais carregado. Pesado, denso. Tem o peso de uma bigorna e o cheiro de um criadouro de porcos. Impossível passar imune: dá pra sentir todo o azedume de uma brisa que se transformou em vendaval. Sair de casa vira um ato de resistência, narinas sangrando, sem ninguém, um filhodaputa sequer pra avisar que escorre um pus vermelho por entre os pelos da cara. De vez em quando nos atiramos na água, a água que afoga, sim, mas que faz esquecer da nossa hematose pulmonar cotidiana. Porém, não há alternativa fora do respirar, e o ar que separa os enfermos ainda é o mesmo que une na epidemia. Então respire. Respire fundo, respire, respire. Não importa a qualidade do ar. Respire, respire sem parar, respire incessantemente, respire até o fim, respire até destruir sua faringe, sua laringe, sua traqueia, até destruir seu brônquio, a porra do seu bronquíolo e, finalmente, claro, seu alvéolo pulmonar. Respire até sufocar. Nunca pare de respirar.

Barrinhas de cereal

Posted in Pensamentos by Shepones on 13/06/2014

Lembro bem de uma vizinha que, diante de uma audiência de fudidos sem lá muitas perspectivas, costumava encher a boca pra falar que fulana fez curso de aeromoça e estava viajando pelo mundo. Engraçado, porque a tripulação de bordo é na realidade o melhor exemplo da falta que a empatia faz ao deslumbrado. Até ontem uma profissão cheia de glamour, aquele glamour moleque, magia, de raiz, cuja distinção separa os bem-sucedidos dos vagabundos como uma espada divide uma melancia. E hoje, hoje estamos aqui espremidos na 27C vendo todo esse glamour aceitar débito ou crédito em corredores estreitos e desconfortáveis, diluído em barrinhas de cereal, refrigerantes e algumas noções de enfermagem, numa versão institucionalizada do mano gritando OLHA O TRIDENT nos vagões da CPTM. Demérito algum para nenhum deles, pra nenhum de nós, é só um pouquinho de mais-valia no bolso de quem manda e de comida na mesa de quem obedece. Mas não deixa de ser curioso perceber como sempre há quem prefira voar com o próprio ego ao invés de manter os pés no chão, e como ainda há quem não faça o menor esforço pra se colocar no lugar do outro e olhá-lo como mais um igual fazendo seu corre pra sobreviver. Uma pena pra minha vizinha, que deve ter ficado puta da vida quando descobriu que o sistema é pernicioso desse jeito.

Saída pra fumar

Posted in Uncategorized by Shepones on 27/02/2012

O cigarro é uma boa metáfora. Talvez nem seja o cigarro em si, mas o ato de fumar. Gosto de dar uma escapada e sacar um cigarro, ter aquela pausa, olhar pro cigarro como se fosse meu próprio espelho, tragar, refletir, expelir,  pensar mais um bocado, olhar pro cigarro de novo num ciclo eterno de cinco minutos e depois mandar o que sobrou do coitado pro cemitério de asfalto. O pior é que eu não fumo. Nem mesmo sei tragar um cigarro – sou do tipinho que gosta de falar que nunca pôs uma palha nos lábios (não que eu seja um mórmon). Às vezes a gente vai lá e simplesmente fuma, sem pensar, mesmo sabendo que o tabaco é acre, cheira mal e impregna. Mas hoje, não. Hoje eu não fumei. Nem um cigarrinho.

Amor

Posted in Pensamentos by Shepones on 18/09/2011

Lembro do dia em que te tive pela primeira vez nas minhas mãos. Parece que foi ontem, sabe? Você era tão lindinha e carinhosa, aqueles olhinhos enrugados…. Nem tamanho tinha! Parecia um ratinho, enfiada sob um moletom adolescente pra fugir do frio do inverno. Mas como era fofa, meu Deus… Foram quase 11 anos juntos; estive ausente em alguns momentos, gritei contigo em outros, fui desatencioso em mais alguns, eu sei. Imperfeito ser humano – ao contrário de você, que na sua lealdade sincera sempre esteve ali pra mim. Suas lambidas, mal- criadezas e todas aquelas escapadelas sorrateiras por debaixo das cobertas pra se aconchegar ao meu lado, nunca vou esquecer. Nunca. Um amor sincero, tenho certeza. Mas agora você se foi. Se foi para se livrar da dor, eu sei, mas me dói quando recordo de ti. Penso nisso por um instante, neste instante, e choro. Choro como um recém-nascido, e dói muito. Ver teu cantinho vazio é estranho. O silêncio também  – é como houvesse um silêncio em mim mesmo.  Dói.  Como é difícil, meu Deus! Mas olha, hoje ouvi uma frase bonita: “só sente a dor da perda quem teve a alegria da presença”. Eu tive sua companhia por todo esse tempo e tenho certeza que a sua presença trouxe um pouco mais de amor e doçura pra mim e pra este mundo. Alguns dizem que você não é um de nós, mas pra mim você sempre foi até mais do que isso – foi, é e será para sempre um pedaço do meu coração. É… Quem diria que esse dia iria chegar. Espero que você saiba que tudo que eu fiz foi pensando no teu bem.  Você sabe, tenho certeza. Tá bem, vou parar de chorar, prometo. Mas a saudade, ah, essa não vai acabar nunca. Descansa e fica bem, Bulma. Eu te amo muito.

Serenidade

Posted in Literatura by Shepones on 20/05/2011

As notícias circulam por meio de amigos (às vezes não mais amigos); ninguém as tem pelos jornais, porque já não circulam há dias, desde o primeiro alerta. Todos sabem que amanhã é o último dia. Encontros, choros, abraços, saques, incêndios, amantes saindo das sombras, cocainômanos vagando como zumbis pela cidade, vendettas – o prenúncio do fim descontrola e promove a verdade. Nem as sirenes funcionam mais, e a única iluminação disponível é aquela dos carros incendiados, nas quais indigentes e internos psiquiátricos em fuga se atiram diuturnamente. Alojada num hospital próximo ao epicentro do fim do mundo,  Maria tenta se recuperar de um câncer. Tem um bom plano de saúde, mas não tem família e também não vem tendo sucesso no tratamento: há alguns dias constatou-se que a doença havia se espalhado do pulmão para o restante do corpo. Médicos e enfermeiros abandonaram o local poucos dias depois, os amigos sumiram em meio à esbórnia do apocalipse e ela ficou sozinha, ouvindo os urros vindos das ruas e refletindo sobre si mesma. Maria terá apenas alguns meses de vida, plantada num leito de hospital cheirando a álcool. A volúpia de sua conta bancária parece-lhe insignificante neste momento, de modo que fica contente em igualar-se ao resto dos mortais diante da perspectiva do fim. Ainda que pudesse sair daquele lugar, não deixaria que seus impulsos tomassem conta, posto que Maria não é o tipo de pessoa desejosa de provar algo para qualquer um a não ser para si própria.  O juízo final, pensou, “não é um acerto de contas entre o Divino e o homem, mas uma luta do homem  contra si mesmo”. Abaixa lenta e calmamente as pálpebras inchadas. Com uma serenidade incomum à ocasião, acredita ter tido uma boa vida, e não carrega dentro de si grandes rancores nem arrependimentos. Na escuridão dos olhos fechados, sorri, satisfeita por sua metástase ter se alastrado para o mundo lá fora, sem atrapalhar seu encontro com Deus.

Depois da cerveja

Posted in Literatura by Shepones on 15/05/2011

– Gostar de alguém com quem você não pode ficar é foda.
– Por que você não ficou com ela?
– Pessoa certa na hora errada.
– Você não tá idealizando, não?
– Juro que não. Consigo pesar minuciosamente todos os prós e contras.
– Qual o balanço?
– Prós ganha de 9 a 0.
– Ela pensa o mesmo em relação a você?
– Tenho a mais absoluta certeza.
– Aí é foda mesmo.
– Não é, velho?!
– Cara, também vivi isso. É tenso!
– Por que não rolou?
– Pessoa certa na hora errada.
– Hmmm.
– E ela casou e foi morar fora. Aí já era.
– Foda. E o que você fez depois?
– Vou vivendo. A gente tenta gostar das que vem, se esforça, mas…
– Né? Também tenho essa sensação.
– De que sempre falta aquilo.
– Exato. Então… Vou tocando de lado, vivendo. Sei lá.
– Você compara todas as minas com ela?
– Sempre. Pior que é involuntário.
– Então você tá fodido mesmo.
– É. Eu sei.

Catraca

Posted in Literatura by Shepones on 14/05/2011

Hoje ele foi pegar o metrô e ficou prestando atenção nos casais se encontrando na catraca. Não foi a primeira nem a última vez que o fez, mas desta vez sentiu alguma coisa nova diante daquilo: indiferença. Ficou extraordinariamente bem na solidão dos seus fones de ouvido, quando há alguns anos estaria invejando aquelas pequenas felicidades, ou pensando em como as teria. De fato, também as teve, muito embora com elas tenham vindo as pequenas (e grandes) decepções, com o mundo e consigo mesmo. Não importava. Passou a repensar os próximos passos, apertou o play e decidiu que agora não tomaria o primeiro trem à vista, de modo a se acomodar melhor durante o resto da viagem.

Soda

Posted in Literatura by Shepones on 09/05/2011

Um Fiat Uno azul marinho parou no ponto de ônibus, e ali trocaram os primeiros olhares. Era para ser apenas um jantar entre duas pessoas com meia dúzia de afinidades em comum, mas a empatia entre os dois logo baniu rituais e formalidades. Abriram mão do restaurante caro e num exercício de desapego conjunto optaram pelo Habib’s da periferia. “Você quer mesmo entrar aí?”, perguntou ele, de soslaio. A fome que não existia foi expulsa pela risadinha cúmplice, e então passaram a se comer ali mesmo. Depois veio a sede, e uma garrafa de soda virou a lembrança da noite. Com exceção de rápidos encontros furtivos, ficaram alguns meses sem se ver, mas recorriam à música para recordar com carinho um do outro. “Acho que tô me apaixonando”, ela disse. Ele ficou desconcertado, mas levou aquelas palavras a sério, e pensou por bem que seria um enorme desperdício não guardá-las. Jogou fora o medo, colocou-as no coração e embaracaram numa relação em permanente conflito com os adjetivos. Alguns os chamaram de loucos, outros de imaturos e até mesmo de irresponsáveis e inconsequentes. Ele, um moleque, se assustava com a vida pregressa daquela mulher; ela, uma mulher, se assustava com a falta de comprometimento daquele moleque. A rotina chegou, e com ela os problemas do dia a dia. Não se abalaram, pelo contrário, passaram a se admirar em meio às dificuldades, que eram muitas e alheias as suas vontades. Fruto de um encontro despretensioso, aquele casal improvável resistia – viam um no outro o próprio reflexo, e consideravam-se almas gêmeas. Não foi suficiente, de todo modo: perceberam que não tinham os mesmos objetivos e a velha desculpa logo se impôs. Pegaram caminhos distintos: sorriram, apanharam, riram, choraram, viveram. Durante o trajeto se machucaram bastante, e as feridas provaram que só um poderia curar definitivamente o outro. No entanto, sabiam, ele e ela, se tratar de algum tipo de provação destinada a testar o amor entre ambos, e isso lhes dava força para seguir em frente. As almas gêmeas respiraram por um instante e prosseguiram. Não seria mais um Fiat velho a uni-los, mas a própria vida e suas experiências: era questão de tempo para que, mais cedo ou mais tarde, seu amor saísse da clandestinidade e pudesse ser gritado antes de outro gole de soda gelada. “Eu te amo”, disseram.

11/9

Posted in Pensamentos by Shepones on 02/05/2011

“Diego, não abre a porta porque os caras tão querendo matar a gente”, disse minha mãe. Barulhos de explosões, carros queimados e barricadas dominavam a Rua Luis Sérgio Person. Minha vó também havia sido instruída a não abrir a porta, mas ela era ingênua: alguém na rua gritou “Olha o gás!”, ela foi lá e… abriu a porta. Três ou quatro pessoas de roupa branca, lenços enrolados na cabeça e coletes camuflados entraram, decapitaram ela e meteram uma bala de AK-47 na cabeça da minha mãe. Não tive tempo de chorar. Vi tudo da janela do quarto – elas foram mortas no corredor lateral – e imediatamente comecei a correr. Escalei milagrosamente o muro do quintal de casa, que tinha uns 10 metros de altura, e consegui fugir. O bairro dos Bancários estava sitiado em setembro de 2001. Por alguns segundos, consegui raciocinar alguma coisa em meio aos tiroteios, e então decidi me abrigar na casa de um amigo, o Polga. Chegando lá, fiquei escondido por algumas horas no porão; me sentia cinza por dentro, e mal conseguia falar. De repente um desconhecido apareceu me oferecendo armamentos: granadas, foguetes antiaéreos, um Kalashnikov e pistolas. Sem agradecer, peguei tudo e abandonei o porão, não sem antes – talvez inspirado em Rambo – amarrar eu mesmo um lenço branco na testa. Saí de lá atirando em todos os seres vivos que via pela frente, até chegar em uma rotatória numa rua sem saída das adjacências. Instalei-me numa barricada de sacos de areia que ficava na entrada superior de um desses escadões de bairro, ali na região da rotatória. Não demorou e fui alvejado. Resisti alguns minutos e troquei mais alguns tiros com um inimigo que eu não conseguia identificar, até que uma granada explodiu ao meu lado. Morri. Não fui, porém, sepultado no mar: acordei e levantei para trabalhar, impressionado com a pirotecnia dos aviões daqueles dias.

Enterrando os mortos

Posted in Literatura by Shepones on 24/04/2011

Um misto de autismo social com orgulho e ausência de autocrítica causaram-lhe a primeira morte. Ela fingiu simular o velório do próprio corpo, mas ressuscitou antes mesmo do início da cerimônia. Despistou amigos, parentes e todos aqueles que a amavam e que ali estavam para render-lhe uma última homenagem. Pôs os pés para fora daquela sala cinza e, sob aplausos dos corvos,  voltou a tocar a neve que caía depois de um curto verão, a gritar a plenos pulmões, a explorar sensações físicas  adormecidas. Sentia-se bastante viva; em realidade, nunca estivera morta, apesar das tumbas e cruzes ao seu redor inspirarem-lhe uma aparência mórbida. De volta ao mundo dos vivos, no entanto, não sabia como proceder. A fuga – e ela sabia disso, embora jamais admitisse – era só mais uma maneira de justificar a procura por um caminho que desconhecia. Interessados em quebrar a monotonia do lugar, os corvos continuavam aplaudindo, enquanto aqueles que um dia a amaram sentiam-se desprestigiados com a indiferença de quem nunca lhes deu ouvidos. Logo a sala do velório esvaziou-se, as opacas luzes do cemitério foram desligadas e os portões, trancados . Todos,  incluindo os corvos, foram embora. Anoiteceu e ela ficou ali, ouvindo apenas a própria voz e tentando esquecer os vazios enquanto apalpava mais uma vez os flocos de neve.  Vivia, por certo, mas era questão de tempo até que a segunda e definitiva morte viesse cumprir sua promessa.

Carta ao meu amigo e terapeuta

Posted in Pensamentos by Shepones on 21/04/2011

Querido amigo,

Quando eu tinha apenas onze anos, ouvi suas primeiras palavras de apoio. Tudo começou quando você me falou sobre como ver as coisas mais claramente pelo retrovisor. Apesar de ainda ser uma criança, achei aquilo muito sensível. Era uma época de amadurecimento, incertezas e descobertas. Isso foi logo depois de sermos apresentados por um amigo em comum, que havia acabado de me emprestar aquele disquinho laranja. Depois, ouvi de você que o ser humano tinha o dom de voar, e que o amor que a gente dá é o amor que a gente guarda para si. E eu voei. Voei de peito aberto para a vida, para o amor, para os desafios.Você me deu confiança para seguir em frente. A essa altura, meu amigo, você já era parte importante da minha vida.  Com o passar dos anos, acabamos nos afastando um pouco, mas o sentimento continuava ali, vivíssimo. Então chegou 2005, o ano em que finalmente nos conheceríamos pessoalmente. Quando soube de sua vinda, fiquei histérico, completamente ensandecido, amalucado. Me senti imaturo por tamanha ansiedade, mas logo vi que não estava sozinho: imediatamente conheci centenas de pessoas com a mesma admiração por ti. Algumas delas, pessoas maravilhosas, tornaram-se grandes amigos meus, tudo graças a você. Pois bem. Segure minha mão, ande ao meu lado que eu só preciso dizer: lembro até hoje de cada momento daqueles três dias em que nos encontramos. Ainda não tive um filho, então posso dizer com tranquilidade que foram os melhores dias da minha vida. Tive a sensação de estar nas nuvens, tão alto que o vento podia me balançar.  Naquela época, assim como ontem e hoje, seu apoio foi muito importante para mim. Desde então, meu amor por você, que já era grande, só fez aumentar. Não passamos um dia sequer sem trocar pensamentos, e sempre procuro saber como você está, mesmo à distância. Meu quarto está repleto de lembranças suas e até me tatuei em sua homenagem. Por conta da minha paixão, a maioria das pessoas me acha doentio, nostálgico ou até mesmo infantil. Elas não entendem que você me reconforta de uma maneira terapêutica, e está ali para mim sempre que eu preciso. Eu não ligo. Tenho minhas memórias, minhas merdas, e isso é o suficiente. Hoje estou vivendo uma fase difícil, então decidi escrever para deixá-lo a par da situação e reiterar meu amor por você. Sim, eu sei que você já me disse milhares de vezes que é melhor viver no presente, que só eu posso me perdoar, que eu devo me segurar às ondas porque a maré vai mudar. Estou tentando, conseguirei com certeza, e boa parte disso devo a sua ajuda e carinho ao longo desses treze anos. É isso. Muito obrigado por existir, meu amigo. Espero revê-lo novamente ainda neste ano.

Beijo grande,

Diego

Insolação

Posted in Literatura by Shepones on 19/04/2011

Os pés descalços denunciavam um desconforto latente. Sob o sol amarelo, caminhava por uma longa estrada reta, cujo destino era incerto. Às vezes recorria ao cantil pendurado na camisa, mas sabia que aquela água, escasseada, estava por acabar. Fitava o céu e temia. Temia a ausência de nuvens, a sede, a força com que a luz violentava seus olhos. Andava pela contramão, e logo a insolação causou náuseas, tontura e lhe embaralhou os pensamentos. A alucinação durou pouco – tempo suficiente, no entanto, para trazer-lhe à mente memórias insondáveis. Não havia trânsito, tampouco quem se dispusesse a dar uma carona. Sua única companhia eram as aves negras que rondavam à espreita.

Poema do argentino

Posted in Literatura by Shepones on 31/10/2010

Na arrancada da vida
nosso Rei se pôs a correr
inimigos caíram aos montes
a rainha fez por merecer

Mas um dia ele também caiu
E todos sofremos
Temendo que a neve
levasse o nosso pequeno

Foi então que chegou
O verão desse herói
Renascido das cinzas
É das bandeiras os sóis

Inverteu o curso de um rio
Não era de ouro, era de prata
Do gramado para o coração
de um povo que por ele mata

Vingador da cisplatina
contra o poder imperial
Deus albiceleste
fez Céu com a mão genial.

Pôr do sol

Posted in Literatura by Shepones on 20/09/2010

Noto o reflexo de meus próprios olhos em meio ao vapor e neles há uma profundidade que denúncia o cansaço do dia a dia. Ônibus, suor, desrespeito, salário imoral, dependência. Constatar uma rotina banal é tarefa inglória.  É preciso dizer, entretanto, que não se trata de uma visão minuciosa. Pelo contrário: é um reflexo opaco, e exige grande esforço para ser captado.  Os azulejos carcomidos exalam cheiro familiar, com a densidade de uma enchente prestes a mitigar inquietante ansiedade. “Poderia ser pior”. Coragem, resignação, não há espaço para fraquejos e lamentações. Foi um dia como qualquer outro – afinal, à humanidade convém fugir de suas próprias responsabilidades. Desligo o chuveiro, mas a água continua caindo sobre mim.

Peripécias sexuais de um taxista de meia idade

Posted in Literatura by Shepones on 08/06/2010

Mais uma noite gelada de segunda-feira se fechando depois de extenuante labuta. Fome, saudade e olheiras: nada disso importa quando se tem à mão um boleto de táxi.

– Rapaz. Trabalho nisso há quinze anos, sempre à noite; das seis da tarde às seis, sete da manhã, de segunda a sábado. A família tá acostumada, sou casado, tenho filho. Mas me aconteceu uma coisa uns tempos atrás, a primeira vez em todos esses anos: comi uma passageira. É, foi a primeira vez em quin-ze a-nos! E como era gostosa. Eu olhava a vagabunda descendo do prédio, você tinha que ver como era gostosa. Só de olhar eu já ficava de pau duro. E o prédio onde ela morava, em Perdizes? Meu Deus do céu. Peguei ela em frente ao prédio, deu dois minutos e ela ligou para o namorado, “tô indo pro restaurante na Rua Amauri. O quê? Você tá na academia dez pra meia-noite???”, e desligou o telefone. Aí me disse: “moço, posso fazer uma pergunta: o que o senhor acha disso?”. Aí eu falei “mulher, você é um tesão, é rica, inteligente, só de te ver caminhando até o táxi já fiquei de pau duro; eu acho que esse cara é viado”. Ela disse “minha amiga falou a mesma coisa, moço!”, ligou de novo pro namorado e cancelou a saída. Trinta e dois anos, uma delícia; porra, como o cara não queria comer ela? Tenho 42 anos e, o senhor me desculpe, quando tinha trinta batia punheta de dez em dez minutos. Aí pediu pra eu deixar ela de volta em casa, beleza, chegou lá, pagou a conta, vinte conto, e falou: “o senhor não quer subir?”.  Meu amigo, fiquei da meia noite até as quatro da manhã trepando; quase comi o cuzinho!  A mulher era perfeita, putaqueopariu – até a gulosa era perfeita! “Você é um tesão”, eu falava. Eu nem acreditava que tava comendo aquela mulher. E pra trabalhar depois? Ainda tive que sacar dinheiro pra minha esposa não desconfiar que deixei de rodar…

Peço para estacionar à esquerda depois do carro prata, e menciono que vou arredondar o valor pra sessenta reais.

– Obrigado. Um dia desses teve uma que ficou me alisando o cabelo, e no final pagou um boquete pra mim aqui. É tara. Tem cada louca na noite… E uma outra, que veio com papo que tava grávida? Aqui não: sou operado já faz cinco anos!

Despeço-me e, com tremedeira, esfrego as mãos enquanto atravesso a viela que me leva pra casa. O taxista abre o vidro lentamente:

– Diego? Você esqueceu a sua via do boleto.

Gente finíssima.

Desconforto sobre rodas

Posted in Literatura by Shepones on 02/06/2010

Vermelho. Esfregou as mãos suadas não com o intuito de secá-las, mas sim de aplacar o frio. Fazia doze graus, e este homem inferiu a informação de um relógio fincado no meio da avenida enquanto esperava. Assim como o suor não o incomodava, tampouco era inquietado pela baixa temperatura. Um minuto parado lhe parecia toda uma vida de espera, de maneira que buscava passar o tempo com pequenas atividades, como trocar de disco, revirar pequenas e indóceis pilhas de papéis ou fumar um cigarro. A sua direita, um automóvel cujo valor facilmente superaria o de sua própria casa no subúrbio, o que o levou a balbuciar alguma coisa contra uma certa classe média que ele por certo invejava. À esquerda, não havia automóveis, somente o espesso do sereno que cobria o vidro lateral, ofuscado por um outro ser humano. Amarelo. Uma barba negra mal cultivada, de corte disforme, sobressaía-se ante a cadeira carcomida que carregava pelas beiradas da metrópole um homem maltrapilho, ensimesmado em seus próprios pensamentos abjetos, impossíveis de serem decrifados e por quem, contudo, havia sinos a dobrar. Aqui dentro, este homem, o primeiro, mas não mais importante, balbuciou mais alguma coisa para si mesmo, desta vez, porém, sem resquício de inveja: – Não vem. Verde. Já passava de meia noite, e o homem, agora o de fora, ensaiou um movimento para um lugar qualquer, o qual, evidentemente, não foi possível ao outro homem – o de dentro – observar para que evitasse algum tipo de atração. Felizmente não houve importunação de nenhuma parte, e puderam seguir tranquilamente seus destinos.

Síndrome de Estocolmo

Posted in Literatura by Shepones on 18/05/2010

Às vezes tinha vontade de ser apenas um livro escondido na estante, com vergonha de ser lido; noutras, dialogava ante o espelho como se este fosse um interlocutor desconhecido, em busca da cura para um mal que, embora endêmico, ninguém saberia ao certo diagnosticar. Amava, sofria e chorava por razões que sabia, sim, identificar. Mas não admitia. Sobretudo amava, muito, o que felizmente lhe dava forças para seguir adiante. Ansiava por experimentar todos que visse à frente, e a este desejo também poderia perfeitamente atribuir uma causa que julgar-se-ia psicologicamente pertinente. Verdade: só queria a Síndrome de Estocolmo para perdoar, sem fé em quem quer que seja a não ser em si mesmo.

Escuro

Posted in Literatura by Shepones on 10/05/2010

Era por certo um homem, mas não tinha a macheza necessária para infligir um tiro à boca que o devorava; ao invés disso, queimou pelas vísceras o bom coração, na tentativa de iluminar o buraco em que se encontrava. Procurou então por uma escuridão que não lhe era inata, antes que o tempo o despertasse para a escuridão dos próprios olhos. Sem efeito. Dele o mundo continuaria a rir, enquanto Deus lhe dava uma esporrada bem no meio da cara.

Frilas

Posted in Literatura by Shepones on 30/04/2010

Certa feita um grande amigo foi a uma casa de diversão na Rua Augusta. Conheceu uma rapariga, moça bem apessoada, loira, sul-africana. Engatou conversa em inglês fluente, descobrindo que a meretriz é estudante no Mackenzie, além de exercer a função de tradutora em horário comercial. As negociações avançaram, e lá se foi meu amigo para um quarto escuro com a puta internacional. Na primeira, pagou, como de praxe, mas sucedeu que, dias depois, este meu amigo logrou novos tentos sem custo algum: na zona norte, dir-se-ia que o picudo estava comendo de graça. Veio então o Rocco de Santana gabar-se da história para os companheiros de faculdade, pessoas cuja profundidade filosófica não vai além das margens do rio Tamanduateí. E para quem, num arroubo de modéstia, esnobou o desempenho profissional da supracitada. “Enjoei”. Seguiu-se o diálogo:

– Ah, tá comendo a puta na faixa, cumedô?

– Ela não é puta.

Incredulidade na mesa. Até as garrafas de cerveja estranharam tamanho contorcionismo no holerith. Seria amor?

– Porra, claro que não. E ela só foi no puteiro umas três vezes.

– Então é puta.

– Não é. Se você é jornalista e faz um trabalho de publicidade eventualmente, não vira publicitário.

– Tendi. Ela só faz frila de puta.

– …

– Na próxima vê se não esquece de pedir CPF na nota.

Ao sol

Posted in Literatura by Shepones on 23/03/2010

A leste havia um altar desnudado ante o sol, e por debaixo dos santos uma mulher de face indecifrável.  Escondia-se sob um véu branco de listras finas, transmitia tranquilidade a seus interlocutores, embora ocultasse também, e principalmente, a falta de coragem encrustada em seu viver. Intempestivamente, e não muito tempo depois, o sol parou de reluzir por vontade própria; do escuro, a mulher extraiu claridade ao acender uma vela para a fé que buscava dentro de seus próprios esconderijos. Fez-se o dia, e com ele um sopro de felicidade arejou até mesmo os mais inoportunos espíritos do coração.

Lá da árvore

Posted in Literatura by Shepones on 04/03/2010

O homem atravessava dias e noites analisando o movimento sob seus olhos.  Não se sabia quem era, o que fazia exatamente, nem mesmo como lograra sobreviver em sua inquebrantável solidão, mas todos que por ali passavam acostumaram-se a serem por ele observados. Fitava a todos, indiscriminadamente: os olhos não os encarava, é claro, mas isso não lhe cessava a qualidade de poder extrair de quaisquer dos transeuntes detalhes inenarráveis de suas vidas. Não ligava para os jornais ou para as complicações mundanas vividas por aquelas pessoas.  Tampouco buscava condescendência ou aproximação. Vivia no cume de uma árvore. Lá do alto, dezenas, centenas, milhares de anos foram transpostos para um caderno de folhas beges e empoeiradas, onde desde tempos imemoriais registrava o resultado de suas ponderações.  Pelo que fora documentado, alguns comportamentos observados eram inatos,  ao passo em que outros foram surgindo ao longo do tempo. Havia ainda uma terceira categoria, cujos registros descreviam as outrora imponderáveis consequências das duas primeiras. Constatou o autor das mal-traçadas que os analisados careciam de empenho para solucioná-las. A estas, então, foram reservadas as últimas páginas do anedotário.

Essência

Posted in Literatura by Shepones on 24/02/2010

Os cartazes fragmentados de um poste de esquina escondiam a fumaça que emanava do cigarro de Gabriel. Alternava entre tragadas e goles, donde tirava forças para não sucumbir ao calor que o subjugava. Não bebia, embora em momentos de menor razão aceitasse ingerir uma ou duas doses de qualquer porcaria que lhe viesse à frente. Esperava por um homem que havia lhe prometido um novo trabalho; não sabia, entretanto, a identidade do misterioso empregador. O encontro, a ser realizado numa magrebina tarde de sábado, fora marcado por telefone; de pronto, houve empatia entre as vozes roucas e ríspidas dos dois lados da linha. Gabriel apagou o cigarro, atirou o resto da bebida goela abaixo e prostrou-se novamente sobre a pilastra de concreto.

Os ponteiros já haviam percorrido algumas dezenas de graus, e a impaciência crescia em ritmo semelhante. “Gabriel”, cochichou-lhe em determinado momento um homem franzino de meia idade, calças pretas surradas assimilando o vermelho de sua camisa entreaberta. Ainda que a situação econômica do País não fosse das melhores, Gabriel não escondeu a perplexidade diante da inesperada oferta de trabalho. “Não se preocupe”,  disse o homem. “É um bom emprego”. Transcorreu somente um par de dias até que Gabriel passasse a exercer com naturalidade sua nova função. Embora seja difícil definir o escopo de atuação de nosso protagonista, não restam dúvidas sobre seu empenho e dedicação. Não tinha hora para entrar, nem para sair. Seu ofício também não dispunha de localização fixa. O mundo era seu escritório.Ainda que inconscientemente, havia abandonado o entorno que o cercava. Foi esquecido pelos amigos, e deles também esquecia deliberadamente. A família o abandonara, e todos ao seu redor estranhavam aquela súbita mudança de postura perante a vida. Encarava os fatos com naturalidade, tamanha que poder-se-ia confundi-la com desdém.

“Estou amadurecendo”.

Apesar da carga, quase nunca era cobrado. Era como se trabalhasse por inércia. Desta forma, foi surpreendido quando o chefe solicitou uma reunião; antes disso, não havia tido uma conversa sequer com o benfazejo patrão. Marcaram de se encontrar naquela mesma esquina cinza. Cumprimentos e formalidades seladas, travou-se o seguinte diálogo:

– Preciso de você – disse o superior, trajando a mesmíssima combinação do primeiro encontro entre os dois.

– Para fazer o que, desta vez? – respondeu Gabriel.

– Você não entendeu – retrucou. – Preciso de você.

Em princípio, Gabriel não havia compreendido a semântica do pedido. Algumas frações de segundo à frente, porém, recebeu a devida explicação. “Tenho de exigir-lhe uma contrapartida, e não estou a falar de resultados”, disse. Gabriel pôs-se a rir. Sem o menor franzido na testa, o homem prosseguiu tranquilamente. “Pois bem, você deve pagar em até dois dias. Pode ficar com dinheiro, te darei até mais, mas não esqueça destas minhas palavras”. Gabriel voltou para casa sem saber como quitar sua dívida. “Que diabos ele quer com isso?”, perguntava a si mesmo. Tratava-se, por evidente, de uma equação errada, “um disparate”, já que havia trabalhado como um egípcio na consecução das missões que lhe foram outorgadas. A esta altura, porém,  não tinha mais a quem recorrer para dirimir suas dúvidas ou pedir ajuda. O prazo dado pelo misterioso patrão estourou, o que foi prontamente ignorado pelo outrora dedicado funcionário. Intrigado, Gabriel não podia mais definir a própria essência.

Em realidade, já a perdera: enfim o pagamento estava feito.

Afasia

Posted in Literatura by Shepones on 14/02/2010

A indecisão o demovia da ação, e o tornava mais e mais procrastinador à medida que seu já escasso tempo passava. Estava confuso quanto a seus desejos, e isso apronfudava-lhe a inércia de pensamento. Ainda mantia, por sorte, a fidelidade às próprias verdades, que o ajudavam a delinear esboços mal ajambrados de futuro. O presente não tinha lá muito sentido, e o passado era só uma lembrança afetuosa, a qual abraçava efusivamente em momentos de carência de objetivos. “Não sei”. Era assim que matutava seus dias e boa parte deles.

Folião

Posted in Literatura by Shepones on 13/02/2010

Macarrão, um amontoado de discos, amor dobrado e Coca-Cola. A alegria está nas ruas, mas é numa casinha de subúrbio que vive a felicidade plena do Carnaval.

Mufasa

Posted in Literatura by Shepones on 11/02/2010

Filho de mãe solteira nasce e é criado em grande metrópole latino-americana, com auto-estima baixa e capital suficiente apenas para o fliperama. Recupera a confiança em si mesmo após ser vítima de bullying durante os anos na escola. Vai para o fundão. Passa o rodo, acaba com as espinhas, vê o time ser campeão mundial e conhece os integrantes de sua banda favorita no camarim depois de um show de 4 horas de duração. Conhece a mulher da sua vida, arruma um emprego onde ganhará o dobro do anterior – menos de 24h depois de ser demitido deste – e tem sua primeira amnésia alcóolica. Formado, resolve as pendências de uma vida familiar  burocrática e instável, supera as neuroses de pai, dispondo de finanças suficientes para o busão e o táxi. Tem um filho, um matrimônio e compra uma casa no campo. Vê o Brasil se vingar do Uruguai, e não deixa de sorrir de soslaio com o gol de Messi sobre a Seleção na final de 2014, no Maracanã.  Assiste Into The Wild pela quinta vez e larga tudo em busca da completude interior. Volta mestrado em artesanatos de beira de estrada, e com um dente a menos. Vai ao dentista, monta uma banda de rock e viaja pelo mundo como se não houvesse terra sob o céu. Cresce os filhos, no plural, e ainda dá 3 por dia sem apelação. O socialismo não vem; o ego fora abolido. Aposenta-se, mas não deixa de jogar o futebol da madrugada com os netos. Ainda não aprendeu a tocar contrabaixo como deveria. Em compensação, passou a frequentar o Estádio do Morumbi duas vezes por semana após a inauguração do metrô mais próximo, em 2054.  Morre sob uma salva de palmas, entre amigos e pessoas amadas que creditar-lhe-iam a dignidade de espírito e a inabalável crença no ser humano.  De herança, uma coleção que já contabiliza 132 camisas de futebol, centenas de ingressos de shows de rock a que comparecera e os mais de 780 discos de vinil – todos da década de 90. O Corinthians, para felicidade além-vida, continua sem o título da Libertadores. Mesmo em pensamentos, a mulher ainda lhe faz cafunés no pescoço, enquanto cochicha juras de amor à espera do encontro final.

REM

Posted in Literatura by Shepones on 03/02/2010

Tenho tido sonhos confusos. Deles, lembro sempre do começo e do meio. Muitos parecem presságios, enquanto outros se assemelham a um passado não muito distante. Será o presente o fim? Tenho me esforçado em acordar animado e bem disposto, embora a realidade teime em antagonizar minha existência madrugada a dentro.  Hmmm. Vou ali pegar um copo de suco de maracujá. Voltando.  Sonhos são como uma amarração em nossas vidas;  sonhar pode ser uma atividade despretensiosamente improdutiva, ainda mais se você não possuir uma capacidade fordista de materializar imaginações. Excesso de pragmático, cinismo, amargura? É possível, mas não invalida a força do argumento. Eu também sonho, mas não escondo minha paralisia sob abstrações de nenhuma sorte. Ao fim e ao cabo, a quem se quer enganar? Deixa o sonho quieto lá. Não fosse ele, o homem não teria em que se escorar para justificar a própria nulidade diante do mundo. Quer suco?

Reconforto

Posted in Literatura by Shepones on 02/02/2010

As barras de ferro empesteadas pela fuligem garantiam ao corredor estreito do veículo alguma familiaridade. Cachorros, pulgas e pães  amanhecidos eram a única companhia deste homem, cuja barba por fazer completara algumas décadas não faz muito tempo. Vivia com sete cachorros e, ainda assim, lograra manter a mais militar higiene no local.

A catraca lhe servia de hall de entrada, e as portas sem pressão eram seu “seja bem vindo!” às improváveis visitas que eventualmente lhe davam sinal – geralmente assistentes sociais, papeleiros ou a carrocinha. A moradia ficava em distrito acessível, porém ermo durante a noite; um lampião rústico, furtado duma lixeira nas cercanias, era sua defesa contra a escuridão que se impunha.

Numa terça-feira que não destoava de outra qualquer, este homem estranhou a ausência do quinto de seus cães, um vira-lata mulambento de pelagem amarronzada, irregular e esburacada. Aflito, sentou-se num dos bancos da composição, acendou um cigarro – comprava-os sempre a granel – e passou a refletir. Ficou nisto por pouco tempo, pois seria ingenuidade ou má-fé imaginar que a auto-crítica consista exercício saudável.

O quinto voltou, juntando-se aos outros seis. O homem apagou o cigarro, alienou-se e expulsou a ansiedade que lhe acometia.  Como não necessitasse de sentir profundamente, contentou-se em afagar sua pequena matilha, num gesto de compreensão incomum entre seres mais objetivos.

Entreato

Posted in Literatura by Shepones on 01/02/2010

Estavam juntos sob sol, chuva ou cataclisma de qualquer natureza. Imiscuiram-se em amor, pois tinham fé um noutro. Um ateu de verdade não pode amar, donde não haveria cegueira a sustentar tamanha luz. Minutos, horas, dias, semanas, meses, não mais que um solstício de plenitude, mutualidades e recíprocas.  O resto, foda-se, quem liga? Pois não tardou e ligou; muito embora não tenha havido hecatombe climática de nenhuma espécie, registraram-se sismos profundos. Nestas horas, sabe-se, é impossível distinguir o bem do mal, cujas propriedades variam de acordo com a ocasião. O cinza e o quarenta também rarearam, e com isto nunca mais se teve notícia do bom senso. Quebrou-se, enfim, e tomaram direções opostas. Os dedos nus por certo sentiram falta do roçar, da cumplicidade e de umidades várias, nutridas pela pureza de quem um dia, imprevisivelmente, fora responsável pelo intempestivo desmonte.

Estática

Posted in Literatura by Shepones on 30/01/2010

João estava entediado. “O que vai acontecer agora”, perguntava a si mesmo, de modo que seus interlocutares identificavam na fala um distanciamento deliberado, comum naqueles que preferem atribuir ao trabalho do acaso a obra do próprio destino. João não acreditava em destino; era um materialista, ao menos da boca pra fora, e considerava a metafísica inconcebível, por mais física que fosse. Principiou ter pensamentos ruins que nunca lhe houvera ocorrido.  Além disso sabia que não deveria dramatizar a situação, embora com frequência tivesse vontade de criar um novo mundo, como quem reseta um videogame. Acreditava no ser humano. O pão e o teto eram compartilhados com a família, cuja convivência resultava mais de pragmatismo que de sentimentos cristãos propriamente ditos. Tinha amigos, mulheres, patrimônio e um papagaio, mas não achava o suficiente. E não era.Depois de anos, sentia-se, pela primeira vez, irremediavelmente sozinho e frustrado, como quem não tivesse um norte para chamar de seu. “Vai ser sempre assim”, resmungava, com uma mistura de resignação e aflição.  João, por evidente, não podia previa o futuro. Ruminou, sentiu, chorou, matutou, optou mais uma vez por ignorar.  Lá fora o cinza das ruas o aguardava para outra caminhada.

Chuva de verão

Posted in Literatura by Shepones on 29/01/2010

Nas ruas uma chuva espessa, vilinha velha e aconchegante, sem o prevísivel barulho das crianças correndo, gritando, jogando a maldita bola típica do mês de janeiro.  A janela branca entreaberta, madeira carcomida, abafava a solidão e o embaraço que emanavam do lugar; num canto, ouvia remanescências de sílabas, vozes distantes, quiproquós alheios, mas não emitia juízo sobre estes últimos. Estava espalhado sobre uma cadeira desconfortável, enquanto tentava ajustá-la a sua altura. Também lutava contra pensamentos imerecidos. Chovia mais, e não haveria como prever seu fim. Não é questão de justiça, tampouco de mérito, logo as más ideias permaneceram esfoliando sua paz. Parou para pensar, e isto lhe reforçou ainda mais a inquietude de espírito. Desceu, sacou um copo em cuja cavidade afundou-se de água geladíssima, e regressou ao quarto onde  ficou por tanto tempo, sem saber-se vivo ou morto. Na mesma.  No reflexo das gotas  a molecada chutava, “comigo não morreu”, “próximo”, “toca porra”;  do meio das nuvens se foi o cinza em detrimento do azul e o sol principou assentar-se, e de longe foi possível sentir o bater daquelas ancas roídas de floresta. A chuva findou, e ouviu-se também um  salto. Desprovido da essência, o corpo nunca fora encontrado. A alma, dizem, continua por aí, sem destino, como um andarilho lutando contra seu próprio limbo de verão.