Aqui estou mais um dia.

Reconforto

Posted in Literatura by Shepones on 02/02/2010

As barras de ferro empesteadas pela fuligem garantiam ao corredor estreito do veículo alguma familiaridade. Cachorros, pulgas e pães  amanhecidos eram a única companhia deste homem, cuja barba por fazer completara algumas décadas não faz muito tempo. Vivia com sete cachorros e, ainda assim, lograra manter a mais militar higiene no local.

A catraca lhe servia de hall de entrada, e as portas sem pressão eram seu “seja bem vindo!” às improváveis visitas que eventualmente lhe davam sinal – geralmente assistentes sociais, papeleiros ou a carrocinha. A moradia ficava em distrito acessível, porém ermo durante a noite; um lampião rústico, furtado duma lixeira nas cercanias, era sua defesa contra a escuridão que se impunha.

Numa terça-feira que não destoava de outra qualquer, este homem estranhou a ausência do quinto de seus cães, um vira-lata mulambento de pelagem amarronzada, irregular e esburacada. Aflito, sentou-se num dos bancos da composição, acendou um cigarro – comprava-os sempre a granel – e passou a refletir. Ficou nisto por pouco tempo, pois seria ingenuidade ou má-fé imaginar que a auto-crítica consista exercício saudável.

O quinto voltou, juntando-se aos outros seis. O homem apagou o cigarro, alienou-se e expulsou a ansiedade que lhe acometia.  Como não necessitasse de sentir profundamente, contentou-se em afagar sua pequena matilha, num gesto de compreensão incomum entre seres mais objetivos.

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