Aqui estou mais um dia.

Mufasa

Posted in Literatura by Shepones on 11/02/2010

Filho de mãe solteira nasce e é criado em grande metrópole latino-americana, com auto-estima baixa e capital suficiente apenas para o fliperama. Recupera a confiança em si mesmo após ser vítima de bullying durante os anos na escola. Vai para o fundão. Passa o rodo, acaba com as espinhas, vê o time ser campeão mundial e conhece os integrantes de sua banda favorita no camarim depois de um show de 4 horas de duração. Conhece a mulher da sua vida, arruma um emprego onde ganhará o dobro do anterior – menos de 24h depois de ser demitido deste – e tem sua primeira amnésia alcóolica. Formado, resolve as pendências de uma vida familiar  burocrática e instável, supera as neuroses de pai, dispondo de finanças suficientes para o busão e o táxi. Tem um filho, um matrimônio e compra uma casa no campo. Vê o Brasil se vingar do Uruguai, e não deixa de sorrir de soslaio com o gol de Messi sobre a Seleção na final de 2014, no Maracanã.  Assiste Into The Wild pela quinta vez e larga tudo em busca da completude interior. Volta mestrado em artesanatos de beira de estrada, e com um dente a menos. Vai ao dentista, monta uma banda de rock e viaja pelo mundo como se não houvesse terra sob o céu. Cresce os filhos, no plural, e ainda dá 3 por dia sem apelação. O socialismo não vem; o ego fora abolido. Aposenta-se, mas não deixa de jogar o futebol da madrugada com os netos. Ainda não aprendeu a tocar contrabaixo como deveria. Em compensação, passou a frequentar o Estádio do Morumbi duas vezes por semana após a inauguração do metrô mais próximo, em 2054.  Morre sob uma salva de palmas, entre amigos e pessoas amadas que creditar-lhe-iam a dignidade de espírito e a inabalável crença no ser humano.  De herança, uma coleção que já contabiliza 132 camisas de futebol, centenas de ingressos de shows de rock a que comparecera e os mais de 780 discos de vinil – todos da década de 90. O Corinthians, para felicidade além-vida, continua sem o título da Libertadores. Mesmo em pensamentos, a mulher ainda lhe faz cafunés no pescoço, enquanto cochicha juras de amor à espera do encontro final.

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3 Respostas

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  1. Juliana said, on 17/02/2010 at 20:59

    Como escreve bem, puta merda. Me enche de orgulho!

  2. Natália Nunes said, on 11/02/2010 at 15:43

    tá bom, eu gostei.

    1 point.

  3. Mariel Moura said, on 11/02/2010 at 14:16

    “Into the Wild” é sensacional. O post mistura Eddie Vedder, Alexander Supertramp e Barbosa, o ‘eterno maldito’.


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