Aqui estou mais um dia.

Soda

Posted in Literatura by Shepones on 09/05/2011

Um Fiat Uno azul marinho parou no ponto de ônibus, e ali trocaram os primeiros olhares. Era para ser apenas um jantar entre duas pessoas com meia dúzia de afinidades em comum, mas a empatia entre os dois logo baniu rituais e formalidades. Abriram mão do restaurante caro e num exercício de desapego conjunto optaram pelo Habib’s da periferia. “Você quer mesmo entrar aí?”, perguntou ele, de soslaio. A fome que não existia foi expulsa pela risadinha cúmplice, e então passaram a se comer ali mesmo. Depois veio a sede, e uma garrafa de soda virou a lembrança da noite. Com exceção de rápidos encontros furtivos, ficaram alguns meses sem se ver, mas recorriam à música para recordar com carinho um do outro. “Acho que tô me apaixonando”, ela disse. Ele ficou desconcertado, mas levou aquelas palavras a sério, e pensou por bem que seria um enorme desperdício não guardá-las. Jogou fora o medo, colocou-as no coração e embaracaram numa relação em permanente conflito com os adjetivos. Alguns os chamaram de loucos, outros de imaturos e até mesmo de irresponsáveis e inconsequentes. Ele, um moleque, se assustava com a vida pregressa daquela mulher; ela, uma mulher, se assustava com a falta de comprometimento daquele moleque. A rotina chegou, e com ela os problemas do dia a dia. Não se abalaram, pelo contrário, passaram a se admirar em meio às dificuldades, que eram muitas e alheias as suas vontades. Fruto de um encontro despretensioso, aquele casal improvável resistia – viam um no outro o próprio reflexo, e consideravam-se almas gêmeas. Não foi suficiente, de todo modo: perceberam que não tinham os mesmos objetivos e a velha desculpa logo se impôs. Pegaram caminhos distintos: sorriram, apanharam, riram, choraram, viveram. Durante o trajeto se machucaram bastante, e as feridas provaram que só um poderia curar definitivamente o outro. No entanto, sabiam, ele e ela, se tratar de algum tipo de provação destinada a testar o amor entre ambos, e isso lhes dava força para seguir em frente. As almas gêmeas respiraram por um instante e prosseguiram. Não seria mais um Fiat velho a uni-los, mas a própria vida e suas experiências: era questão de tempo para que, mais cedo ou mais tarde, seu amor saísse da clandestinidade e pudesse ser gritado antes de outro gole de soda gelada. “Eu te amo”, disseram.

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2 Respostas

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  1. jansenrj said, on 09/05/2011 at 03:43

    Wishing though I never could

  2. jansenrj said, on 09/05/2011 at 03:41

    e aqui estou sem sono. pensando na soda gelada…


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