Aqui estou mais um dia.

Respire

Posted in Literatura by Shepones on 13/06/2014

Tanto ar jogado para o alto e não há espaço para erguer a espinha e sentir o entra e sai dos nossos pulmões. Cada dia mais carregado. Pesado, denso. Tem o peso de uma bigorna e o cheiro de um criadouro de porcos. Impossível passar imune: dá pra sentir todo o azedume de uma brisa que se transformou em vendaval. Sair de casa vira um ato de resistência, narinas sangrando, sem ninguém, um filhodaputa sequer pra avisar que escorre um pus vermelho por entre os pelos da cara. De vez em quando nos atiramos na água, a água que afoga, sim, mas que faz esquecer da nossa hematose pulmonar cotidiana. Porém, não há alternativa fora do respirar, e o ar que separa os enfermos ainda é o mesmo que une na epidemia. Então respire. Respire fundo, respire, respire. Não importa a qualidade do ar. Respire, respire sem parar, respire incessantemente, respire até o fim, respire até destruir sua faringe, sua laringe, sua traqueia, até destruir seu brônquio, a porra do seu bronquíolo e, finalmente, claro, seu alvéolo pulmonar. Respire até sufocar. Nunca pare de respirar.

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