Aqui estou mais um dia.

São Paulo

Posted in Uncategorized by Shepones on 13/06/2014

Há muitos clichês sobre São Paulo. Acolhedora, diversa, cidade que nunca dorme. Bobagem. Talvez ‘locomotiva do Brasil’ seja mais adequado, afinal o trem paulistano fatalmente passa por cima do Brasil quando ele está (desculpem, não resisti) entrando nos trilhos. Há ainda outro clichê segundo o qual São Paulo é uma cidade conservadora, o que também é impreciso. A verdade, porém, precisa ser dita. E a verdade é: São Paulo é uma cidade provinciana. 

Nós, paulistanos, nos escondemos atrás de todos os clichês que nos interessam para disfarçar esse dado crítico do nosso ethos: somos caipiras que não aceitam a metrópole, irmãos de fraternidade inexistente. Não há acolhimento possível na Rota. Não há diversidade no quarto de empregada. Há um sono profundo nos bares que fecham à meia-noite. O cosmopolitismo de São Paulo é o cosmopolitismo dos turistas que não conhecem a própria cidade. 

O paulistano é um Urtigão que faz do carro, escopeta. 

São Paulo é uma cidade em constante crise de identidade, mas cuja própria identidade está em disputa. Pergunte a qualquer paulistano fora do centro expandido e você notará uma ansiedade de reconhecimento – afinal, o que é o bairrismo senão um movimento de autoafirmação? 

São Paulo não é a São Paulo do ‘Ibira’, não é a São Paulo do Racionais, não é a São Paulo da ‘vila’ ou do Clube Paulistano. São Paulo não é só a cidade que sai na Revista São Paulo aos domingos e nos perdigotos do Datena de segunda à sexta. São Paulo é também a cidade do Horto Florestal; do Jaraguá, da Igreja da Penha, da capela de São Miguel e da Praça do Forró; do campinho de terra em Cidade Tiradentes, do escadão do Eliza Maria; São Paulo é a cidade dos sobradinhos de Santana, do finado Tramway, dos condomínios na Raposo, do Tiquatira, do Jardim Botânico, dos coqueiros da Sabará, das chácaras com ônibus na porta na Cantareira, do Clube Espéria. 

Falar mal da própria cidade é uma atividade recreativa comum entre os paulistanos de todos os cantos da cidade. Nem é preciso entrar no mérito da beleza. Todos já fomos felizes com o(a) feinho(a) gente fina. Mas como uma cidade concretada sobre um fundo de vale e sobre várzeas de rios poderia dar certo, afinal? 

Até que acabou dando bem certo, se for ver. 

Uma vilinha irrelevante que se tornou uma das maiores cidades do mundo. Uma cidade que -sejamos honestos- acolheu, sim, milhões de trabalhadores do Brasil e do mundo em um espaço curtíssimo de tempo. Uma cidade que diante de sua história e circunstâncias tem uma organização invejável (pense em Nova Delhi ou Lagos, por exemplo) e uma oferta cultural imensa, apesar de todos os seus problemas. Pouquíssimas cidades do planeta enfrentariam os problemas que São Paulo enfrentou com tamanha maestria. Guerra contra a Federação; falta de indústrias; migração de massas; uma elite conservadoríssima. Historicamente, São Paulo é um milagre. 

Esse talvez seja o traço mais marcante da nossa identidade. O paulistano é também a maior mulher de malandro do Brasil. 

Os laços que criamos na cidade se confundem com ela própria e é isso que nos enraíza aqui. A casa é onde o coração está. São Paulo já é a cidade dos pequenos amores, dos amigos que saem juntos pra se divertir em qualquer biboca (mas só até à meia-noite!), dos namorados de mãos dadas na bosta do shopping ou na Praça Pôr do Sol. 

Mas… falta a integração.

São Paulo precisa ser a cidade onde o mooquense tenha orgulho do Pari e não ache aquilo um ‘antro’ de bolivianos. Onde o cidadão que mora em Pinheiros saiba apontar a Vila Medeiros no mapa e não ache aquilo ‘o fim do mundo’. Um orgulho real, vivido, frequentado – e não de páginas de jornais. Onde o velhinho da Vila Maria não tenha no imaginário sobre o Capão Redondo cenas da guerra civil em Angola. Onde todos se orgulhem de todas as partes da cidade. Não há amor fora da empatia. Não há cidade fora da integração. 

Por mais que o malandro me bata, eu ainda acredito no afago dele.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: