Aqui estou mais um dia.

Luis Sérgio Person

Posted in Uncategorized by Shepones on 16/06/2014

Caminhando sem muita direção, chutando umas pedrinhas, desviando dos carros que querem te atropelar enquanto você só tenta fazer aquele golzinho na trave de pedra e se consagrar pros teus amiguinhos.  Crescer na rua não deixa de ser um prenúncio. Nem sempre é possível dominá-la: enquanto uns fazem dela um irmão mais novo cheio de cumplicidade inocente, outros fingem que ela não existe, e fogem como de um pai que se impõe pela violência do medo. São centenas de futuros consubstanciados em 300 metros de paralelepípedos e cimento: os boleiros, o mano do skate, o pichador, o que era tudo isso, o polícia, a velha que taca água na criançada, a viúva fofoqueira, o crente, o católico-passador-de-imagem-de-santa-de-casa-em-casa, o católico-passador-de-imagem-de-santa-de-casa-em-casa que xingava a criançada de favelada, a vizinha gostosa lavando a calçada de shortinho jeans, o retirante, o pedreiro que não parava em casa, o playboy metido à surfista, o maconheiro, os angolanos, os baianos, o bêbado louquinho que sumiu e ninguém mais ouviu falar.  A rua forja o eu a partir do reflexo das silhuetas no calor do asfalto – ela é ao mesmo tempo espelho e destino, destino incerto e duvidoso por ceder pouco a pouco seu espaço para a indiferença. Uma rua vazia é um clarão na mata das almas, posto que ela é o centro da humanidade, o espaço onde julgamos e somos julgados, onde admiramos e rejeitamos, onde vivemos e morremos por instantes sob o olhar de quem nunca vimos. A rua é humana, e por isso há também que dela fuja, como se o outro fosse um fardo muito pesado, fruto da incapacidade de reconhecermos nossa essência na diferença.  Há, porém, a certeza de que a rua estará lá, sim, ela estará lá daqui a 10, 30, 100 anos, talvez com uns buracos a mais, quem sabe com postes a menos na calçada, por que não?, mas estará lá,  para caminharmos sobre o seu piche seco e nos dar a chance de cumprimentar de novo aqueles velhos vizinhos do imponderável. Pela rua vivemos, e na sua ausência invariavelmente deixaremos de ser.

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