Aqui estou mais um dia.

Homem da cândida

Posted in Uncategorized by Shepones on 04/07/2014

Guardo lembranças da cândida, uma menos voluptuosa, não a Maria Fernanda, uma pena, mas sim o artigo de primeira necessidade. Talvez já tenham criado um substituto mais sofisticado, uma máquina que embranqueça em três minutos, cloro gourmet, o Michael Jackson dos alvejantes, o fato é que, para além de toda sua relevância sócio-cultural nas cidades brasileiras, a cândida teve lá seu papel no desenvolvimento psicossocial das crianças e adolescentes que choraram a execução do amarelinho por Cannigia em 1990 –  eu, por exemplo. O escritor Miltom Hatoum tem uma crônica chamada ‘Lembrança do meu primeiro medo’, e o dele era o medo do rio, coitado, quase se cagou enquanto atravessava um pontezinha qualquer lá na Amazônia e fitou a imensidão de água marrom abaixo dos próprios pés. Na São Paulo do Lazaroni a gente não tem um rio desse tamanho, o Tietê, putz, esse aí faz a molecada é cair na gargalhada – mas em São Paulo tinha o homem da cândida. Era um horror, uma coisa genuinamente assustadora, cu na mão mesmo: molecada lá jogando linha, três dentro-três fora, taco, enquanto o horizonte anunciava aquela kombi carcomida, alto-falante oxidado e entupido pela rouquidão da voz do demônio anunciando um fim prematuro. ‘Olha a cândida’. ‘Olha a cândida, freguesa’. ‘Olha cândida’. Balbuciava a primeira sílaba do ‘olha’ e eu já tava chorando enlutado pela ‘cândida’, correndo desesperado atrás da mãe, que era o Deus possível na época.  Não que eu tenha me transformado num adulto sujinho, juro que não!, mas é que essa coisa de limpeza total, tinindo, branquinho, branquinho, sempre me pareceu coisa de maluco com transtorno obsessivo compulsivo, de quem que não admite nada fora do lugar. De quem não admite uma sujeirinha lá dentro, nada que te transforme num Cascão existencial, não, mas que te lembre que sempre há algo pra ser lavado – pode ser o hoje, o eu, os ontens, nosso reflexo no outro. O homem da cândida foi meu primeiro medo.

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