Aqui estou mais um dia.

Respire

Posted in Literatura by Shepones on 13/06/2014

Tanto ar jogado para o alto e não há espaço para erguer a espinha e sentir o entra e sai dos nossos pulmões. Cada dia mais carregado. Pesado, denso. Tem o peso de uma bigorna e o cheiro de um criadouro de porcos. Impossível passar imune: dá pra sentir todo o azedume de uma brisa que se transformou em vendaval. Sair de casa vira um ato de resistência, narinas sangrando, sem ninguém, um filhodaputa sequer pra avisar que escorre um pus vermelho por entre os pelos da cara. De vez em quando nos atiramos na água, a água que afoga, sim, mas que faz esquecer da nossa hematose pulmonar cotidiana. Porém, não há alternativa fora do respirar, e o ar que separa os enfermos ainda é o mesmo que une na epidemia. Então respire. Respire fundo, respire, respire. Não importa a qualidade do ar. Respire, respire sem parar, respire incessantemente, respire até o fim, respire até destruir sua faringe, sua laringe, sua traqueia, até destruir seu brônquio, a porra do seu bronquíolo e, finalmente, claro, seu alvéolo pulmonar. Respire até sufocar. Nunca pare de respirar.

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Serenidade

Posted in Literatura by Shepones on 20/05/2011

As notícias circulam por meio de amigos (às vezes não mais amigos); ninguém as tem pelos jornais, porque já não circulam há dias, desde o primeiro alerta. Todos sabem que amanhã é o último dia. Encontros, choros, abraços, saques, incêndios, amantes saindo das sombras, cocainômanos vagando como zumbis pela cidade, vendettas – o prenúncio do fim descontrola e promove a verdade. Nem as sirenes funcionam mais, e a única iluminação disponível é aquela dos carros incendiados, nas quais indigentes e internos psiquiátricos em fuga se atiram diuturnamente. Alojada num hospital próximo ao epicentro do fim do mundo,  Maria tenta se recuperar de um câncer. Tem um bom plano de saúde, mas não tem família e também não vem tendo sucesso no tratamento: há alguns dias constatou-se que a doença havia se espalhado do pulmão para o restante do corpo. Médicos e enfermeiros abandonaram o local poucos dias depois, os amigos sumiram em meio à esbórnia do apocalipse e ela ficou sozinha, ouvindo os urros vindos das ruas e refletindo sobre si mesma. Maria terá apenas alguns meses de vida, plantada num leito de hospital cheirando a álcool. A volúpia de sua conta bancária parece-lhe insignificante neste momento, de modo que fica contente em igualar-se ao resto dos mortais diante da perspectiva do fim. Ainda que pudesse sair daquele lugar, não deixaria que seus impulsos tomassem conta, posto que Maria não é o tipo de pessoa desejosa de provar algo para qualquer um a não ser para si própria.  O juízo final, pensou, “não é um acerto de contas entre o Divino e o homem, mas uma luta do homem  contra si mesmo”. Abaixa lenta e calmamente as pálpebras inchadas. Com uma serenidade incomum à ocasião, acredita ter tido uma boa vida, e não carrega dentro de si grandes rancores nem arrependimentos. Na escuridão dos olhos fechados, sorri, satisfeita por sua metástase ter se alastrado para o mundo lá fora, sem atrapalhar seu encontro com Deus.

Depois da cerveja

Posted in Literatura by Shepones on 15/05/2011

– Gostar de alguém com quem você não pode ficar é foda.
– Por que você não ficou com ela?
– Pessoa certa na hora errada.
– Você não tá idealizando, não?
– Juro que não. Consigo pesar minuciosamente todos os prós e contras.
– Qual o balanço?
– Prós ganha de 9 a 0.
– Ela pensa o mesmo em relação a você?
– Tenho a mais absoluta certeza.
– Aí é foda mesmo.
– Não é, velho?!
– Cara, também vivi isso. É tenso!
– Por que não rolou?
– Pessoa certa na hora errada.
– Hmmm.
– E ela casou e foi morar fora. Aí já era.
– Foda. E o que você fez depois?
– Vou vivendo. A gente tenta gostar das que vem, se esforça, mas…
– Né? Também tenho essa sensação.
– De que sempre falta aquilo.
– Exato. Então… Vou tocando de lado, vivendo. Sei lá.
– Você compara todas as minas com ela?
– Sempre. Pior que é involuntário.
– Então você tá fodido mesmo.
– É. Eu sei.

Catraca

Posted in Literatura by Shepones on 14/05/2011

Hoje ele foi pegar o metrô e ficou prestando atenção nos casais se encontrando na catraca. Não foi a primeira nem a última vez que o fez, mas desta vez sentiu alguma coisa nova diante daquilo: indiferença. Ficou extraordinariamente bem na solidão dos seus fones de ouvido, quando há alguns anos estaria invejando aquelas pequenas felicidades, ou pensando em como as teria. De fato, também as teve, muito embora com elas tenham vindo as pequenas (e grandes) decepções, com o mundo e consigo mesmo. Não importava. Passou a repensar os próximos passos, apertou o play e decidiu que agora não tomaria o primeiro trem à vista, de modo a se acomodar melhor durante o resto da viagem.

Soda

Posted in Literatura by Shepones on 09/05/2011

Um Fiat Uno azul marinho parou no ponto de ônibus, e ali trocaram os primeiros olhares. Era para ser apenas um jantar entre duas pessoas com meia dúzia de afinidades em comum, mas a empatia entre os dois logo baniu rituais e formalidades. Abriram mão do restaurante caro e num exercício de desapego conjunto optaram pelo Habib’s da periferia. “Você quer mesmo entrar aí?”, perguntou ele, de soslaio. A fome que não existia foi expulsa pela risadinha cúmplice, e então passaram a se comer ali mesmo. Depois veio a sede, e uma garrafa de soda virou a lembrança da noite. Com exceção de rápidos encontros furtivos, ficaram alguns meses sem se ver, mas recorriam à música para recordar com carinho um do outro. “Acho que tô me apaixonando”, ela disse. Ele ficou desconcertado, mas levou aquelas palavras a sério, e pensou por bem que seria um enorme desperdício não guardá-las. Jogou fora o medo, colocou-as no coração e embaracaram numa relação em permanente conflito com os adjetivos. Alguns os chamaram de loucos, outros de imaturos e até mesmo de irresponsáveis e inconsequentes. Ele, um moleque, se assustava com a vida pregressa daquela mulher; ela, uma mulher, se assustava com a falta de comprometimento daquele moleque. A rotina chegou, e com ela os problemas do dia a dia. Não se abalaram, pelo contrário, passaram a se admirar em meio às dificuldades, que eram muitas e alheias as suas vontades. Fruto de um encontro despretensioso, aquele casal improvável resistia – viam um no outro o próprio reflexo, e consideravam-se almas gêmeas. Não foi suficiente, de todo modo: perceberam que não tinham os mesmos objetivos e a velha desculpa logo se impôs. Pegaram caminhos distintos: sorriram, apanharam, riram, choraram, viveram. Durante o trajeto se machucaram bastante, e as feridas provaram que só um poderia curar definitivamente o outro. No entanto, sabiam, ele e ela, se tratar de algum tipo de provação destinada a testar o amor entre ambos, e isso lhes dava força para seguir em frente. As almas gêmeas respiraram por um instante e prosseguiram. Não seria mais um Fiat velho a uni-los, mas a própria vida e suas experiências: era questão de tempo para que, mais cedo ou mais tarde, seu amor saísse da clandestinidade e pudesse ser gritado antes de outro gole de soda gelada. “Eu te amo”, disseram.

Enterrando os mortos

Posted in Literatura by Shepones on 24/04/2011

Um misto de autismo social com orgulho e ausência de autocrítica causaram-lhe a primeira morte. Ela fingiu simular o velório do próprio corpo, mas ressuscitou antes mesmo do início da cerimônia. Despistou amigos, parentes e todos aqueles que a amavam e que ali estavam para render-lhe uma última homenagem. Pôs os pés para fora daquela sala cinza e, sob aplausos dos corvos,  voltou a tocar a neve que caía depois de um curto verão, a gritar a plenos pulmões, a explorar sensações físicas  adormecidas. Sentia-se bastante viva; em realidade, nunca estivera morta, apesar das tumbas e cruzes ao seu redor inspirarem-lhe uma aparência mórbida. De volta ao mundo dos vivos, no entanto, não sabia como proceder. A fuga – e ela sabia disso, embora jamais admitisse – era só mais uma maneira de justificar a procura por um caminho que desconhecia. Interessados em quebrar a monotonia do lugar, os corvos continuavam aplaudindo, enquanto aqueles que um dia a amaram sentiam-se desprestigiados com a indiferença de quem nunca lhes deu ouvidos. Logo a sala do velório esvaziou-se, as opacas luzes do cemitério foram desligadas e os portões, trancados . Todos,  incluindo os corvos, foram embora. Anoiteceu e ela ficou ali, ouvindo apenas a própria voz e tentando esquecer os vazios enquanto apalpava mais uma vez os flocos de neve.  Vivia, por certo, mas era questão de tempo até que a segunda e definitiva morte viesse cumprir sua promessa.

Insolação

Posted in Literatura by Shepones on 19/04/2011

Os pés descalços denunciavam um desconforto latente. Sob o sol amarelo, caminhava por uma longa estrada reta, cujo destino era incerto. Às vezes recorria ao cantil pendurado na camisa, mas sabia que aquela água, escasseada, estava por acabar. Fitava o céu e temia. Temia a ausência de nuvens, a sede, a força com que a luz violentava seus olhos. Andava pela contramão, e logo a insolação causou náuseas, tontura e lhe embaralhou os pensamentos. A alucinação durou pouco – tempo suficiente, no entanto, para trazer-lhe à mente memórias insondáveis. Não havia trânsito, tampouco quem se dispusesse a dar uma carona. Sua única companhia eram as aves negras que rondavam à espreita.

Poema do argentino

Posted in Literatura by Shepones on 31/10/2010

Na arrancada da vida
nosso Rei se pôs a correr
inimigos caíram aos montes
a rainha fez por merecer

Mas um dia ele também caiu
E todos sofremos
Temendo que a neve
levasse o nosso pequeno

Foi então que chegou
O verão desse herói
Renascido das cinzas
É das bandeiras os sóis

Inverteu o curso de um rio
Não era de ouro, era de prata
Do gramado para o coração
de um povo que por ele mata

Vingador da cisplatina
contra o poder imperial
Deus albiceleste
fez Céu com a mão genial.

Pôr do sol

Posted in Literatura by Shepones on 20/09/2010

Noto o reflexo de meus próprios olhos em meio ao vapor e neles há uma profundidade que denúncia o cansaço do dia a dia. Ônibus, suor, desrespeito, salário imoral, dependência. Constatar uma rotina banal é tarefa inglória.  É preciso dizer, entretanto, que não se trata de uma visão minuciosa. Pelo contrário: é um reflexo opaco, e exige grande esforço para ser captado.  Os azulejos carcomidos exalam cheiro familiar, com a densidade de uma enchente prestes a mitigar inquietante ansiedade. “Poderia ser pior”. Coragem, resignação, não há espaço para fraquejos e lamentações. Foi um dia como qualquer outro – afinal, à humanidade convém fugir de suas próprias responsabilidades. Desligo o chuveiro, mas a água continua caindo sobre mim.

Peripécias sexuais de um taxista de meia idade

Posted in Literatura by Shepones on 08/06/2010

Mais uma noite gelada de segunda-feira se fechando depois de extenuante labuta. Fome, saudade e olheiras: nada disso importa quando se tem à mão um boleto de táxi.

– Rapaz. Trabalho nisso há quinze anos, sempre à noite; das seis da tarde às seis, sete da manhã, de segunda a sábado. A família tá acostumada, sou casado, tenho filho. Mas me aconteceu uma coisa uns tempos atrás, a primeira vez em todos esses anos: comi uma passageira. É, foi a primeira vez em quin-ze a-nos! E como era gostosa. Eu olhava a vagabunda descendo do prédio, você tinha que ver como era gostosa. Só de olhar eu já ficava de pau duro. E o prédio onde ela morava, em Perdizes? Meu Deus do céu. Peguei ela em frente ao prédio, deu dois minutos e ela ligou para o namorado, “tô indo pro restaurante na Rua Amauri. O quê? Você tá na academia dez pra meia-noite???”, e desligou o telefone. Aí me disse: “moço, posso fazer uma pergunta: o que o senhor acha disso?”. Aí eu falei “mulher, você é um tesão, é rica, inteligente, só de te ver caminhando até o táxi já fiquei de pau duro; eu acho que esse cara é viado”. Ela disse “minha amiga falou a mesma coisa, moço!”, ligou de novo pro namorado e cancelou a saída. Trinta e dois anos, uma delícia; porra, como o cara não queria comer ela? Tenho 42 anos e, o senhor me desculpe, quando tinha trinta batia punheta de dez em dez minutos. Aí pediu pra eu deixar ela de volta em casa, beleza, chegou lá, pagou a conta, vinte conto, e falou: “o senhor não quer subir?”.  Meu amigo, fiquei da meia noite até as quatro da manhã trepando; quase comi o cuzinho!  A mulher era perfeita, putaqueopariu – até a gulosa era perfeita! “Você é um tesão”, eu falava. Eu nem acreditava que tava comendo aquela mulher. E pra trabalhar depois? Ainda tive que sacar dinheiro pra minha esposa não desconfiar que deixei de rodar…

Peço para estacionar à esquerda depois do carro prata, e menciono que vou arredondar o valor pra sessenta reais.

– Obrigado. Um dia desses teve uma que ficou me alisando o cabelo, e no final pagou um boquete pra mim aqui. É tara. Tem cada louca na noite… E uma outra, que veio com papo que tava grávida? Aqui não: sou operado já faz cinco anos!

Despeço-me e, com tremedeira, esfrego as mãos enquanto atravesso a viela que me leva pra casa. O taxista abre o vidro lentamente:

– Diego? Você esqueceu a sua via do boleto.

Gente finíssima.

Desconforto sobre rodas

Posted in Literatura by Shepones on 02/06/2010

Vermelho. Esfregou as mãos suadas não com o intuito de secá-las, mas sim de aplacar o frio. Fazia doze graus, e este homem inferiu a informação de um relógio fincado no meio da avenida enquanto esperava. Assim como o suor não o incomodava, tampouco era inquietado pela baixa temperatura. Um minuto parado lhe parecia toda uma vida de espera, de maneira que buscava passar o tempo com pequenas atividades, como trocar de disco, revirar pequenas e indóceis pilhas de papéis ou fumar um cigarro. A sua direita, um automóvel cujo valor facilmente superaria o de sua própria casa no subúrbio, o que o levou a balbuciar alguma coisa contra uma certa classe média que ele por certo invejava. À esquerda, não havia automóveis, somente o espesso do sereno que cobria o vidro lateral, ofuscado por um outro ser humano. Amarelo. Uma barba negra mal cultivada, de corte disforme, sobressaía-se ante a cadeira carcomida que carregava pelas beiradas da metrópole um homem maltrapilho, ensimesmado em seus próprios pensamentos abjetos, impossíveis de serem decrifados e por quem, contudo, havia sinos a dobrar. Aqui dentro, este homem, o primeiro, mas não mais importante, balbuciou mais alguma coisa para si mesmo, desta vez, porém, sem resquício de inveja: – Não vem. Verde. Já passava de meia noite, e o homem, agora o de fora, ensaiou um movimento para um lugar qualquer, o qual, evidentemente, não foi possível ao outro homem – o de dentro – observar para que evitasse algum tipo de atração. Felizmente não houve importunação de nenhuma parte, e puderam seguir tranquilamente seus destinos.

Síndrome de Estocolmo

Posted in Literatura by Shepones on 18/05/2010

Às vezes tinha vontade de ser apenas um livro escondido na estante, com vergonha de ser lido; noutras, dialogava ante o espelho como se este fosse um interlocutor desconhecido, em busca da cura para um mal que, embora endêmico, ninguém saberia ao certo diagnosticar. Amava, sofria e chorava por razões que sabia, sim, identificar. Mas não admitia. Sobretudo amava, muito, o que felizmente lhe dava forças para seguir adiante. Ansiava por experimentar todos que visse à frente, e a este desejo também poderia perfeitamente atribuir uma causa que julgar-se-ia psicologicamente pertinente. Verdade: só queria a Síndrome de Estocolmo para perdoar, sem fé em quem quer que seja a não ser em si mesmo.

Escuro

Posted in Literatura by Shepones on 10/05/2010

Era por certo um homem, mas não tinha a macheza necessária para infligir um tiro à boca que o devorava; ao invés disso, queimou pelas vísceras o bom coração, na tentativa de iluminar o buraco em que se encontrava. Procurou então por uma escuridão que não lhe era inata, antes que o tempo o despertasse para a escuridão dos próprios olhos. Sem efeito. Dele o mundo continuaria a rir, enquanto Deus lhe dava uma esporrada bem no meio da cara.

Frilas

Posted in Literatura by Shepones on 30/04/2010

Certa feita um grande amigo foi a uma casa de diversão na Rua Augusta. Conheceu uma rapariga, moça bem apessoada, loira, sul-africana. Engatou conversa em inglês fluente, descobrindo que a meretriz é estudante no Mackenzie, além de exercer a função de tradutora em horário comercial. As negociações avançaram, e lá se foi meu amigo para um quarto escuro com a puta internacional. Na primeira, pagou, como de praxe, mas sucedeu que, dias depois, este meu amigo logrou novos tentos sem custo algum: na zona norte, dir-se-ia que o picudo estava comendo de graça. Veio então o Rocco de Santana gabar-se da história para os companheiros de faculdade, pessoas cuja profundidade filosófica não vai além das margens do rio Tamanduateí. E para quem, num arroubo de modéstia, esnobou o desempenho profissional da supracitada. “Enjoei”. Seguiu-se o diálogo:

– Ah, tá comendo a puta na faixa, cumedô?

– Ela não é puta.

Incredulidade na mesa. Até as garrafas de cerveja estranharam tamanho contorcionismo no holerith. Seria amor?

– Porra, claro que não. E ela só foi no puteiro umas três vezes.

– Então é puta.

– Não é. Se você é jornalista e faz um trabalho de publicidade eventualmente, não vira publicitário.

– Tendi. Ela só faz frila de puta.

– …

– Na próxima vê se não esquece de pedir CPF na nota.

Ao sol

Posted in Literatura by Shepones on 23/03/2010

A leste havia um altar desnudado ante o sol, e por debaixo dos santos uma mulher de face indecifrável.  Escondia-se sob um véu branco de listras finas, transmitia tranquilidade a seus interlocutores, embora ocultasse também, e principalmente, a falta de coragem encrustada em seu viver. Intempestivamente, e não muito tempo depois, o sol parou de reluzir por vontade própria; do escuro, a mulher extraiu claridade ao acender uma vela para a fé que buscava dentro de seus próprios esconderijos. Fez-se o dia, e com ele um sopro de felicidade arejou até mesmo os mais inoportunos espíritos do coração.

Lá da árvore

Posted in Literatura by Shepones on 04/03/2010

O homem atravessava dias e noites analisando o movimento sob seus olhos.  Não se sabia quem era, o que fazia exatamente, nem mesmo como lograra sobreviver em sua inquebrantável solidão, mas todos que por ali passavam acostumaram-se a serem por ele observados. Fitava a todos, indiscriminadamente: os olhos não os encarava, é claro, mas isso não lhe cessava a qualidade de poder extrair de quaisquer dos transeuntes detalhes inenarráveis de suas vidas. Não ligava para os jornais ou para as complicações mundanas vividas por aquelas pessoas.  Tampouco buscava condescendência ou aproximação. Vivia no cume de uma árvore. Lá do alto, dezenas, centenas, milhares de anos foram transpostos para um caderno de folhas beges e empoeiradas, onde desde tempos imemoriais registrava o resultado de suas ponderações.  Pelo que fora documentado, alguns comportamentos observados eram inatos,  ao passo em que outros foram surgindo ao longo do tempo. Havia ainda uma terceira categoria, cujos registros descreviam as outrora imponderáveis consequências das duas primeiras. Constatou o autor das mal-traçadas que os analisados careciam de empenho para solucioná-las. A estas, então, foram reservadas as últimas páginas do anedotário.

Essência

Posted in Literatura by Shepones on 24/02/2010

Os cartazes fragmentados de um poste de esquina escondiam a fumaça que emanava do cigarro de Gabriel. Alternava entre tragadas e goles, donde tirava forças para não sucumbir ao calor que o subjugava. Não bebia, embora em momentos de menor razão aceitasse ingerir uma ou duas doses de qualquer porcaria que lhe viesse à frente. Esperava por um homem que havia lhe prometido um novo trabalho; não sabia, entretanto, a identidade do misterioso empregador. O encontro, a ser realizado numa magrebina tarde de sábado, fora marcado por telefone; de pronto, houve empatia entre as vozes roucas e ríspidas dos dois lados da linha. Gabriel apagou o cigarro, atirou o resto da bebida goela abaixo e prostrou-se novamente sobre a pilastra de concreto.

Os ponteiros já haviam percorrido algumas dezenas de graus, e a impaciência crescia em ritmo semelhante. “Gabriel”, cochichou-lhe em determinado momento um homem franzino de meia idade, calças pretas surradas assimilando o vermelho de sua camisa entreaberta. Ainda que a situação econômica do País não fosse das melhores, Gabriel não escondeu a perplexidade diante da inesperada oferta de trabalho. “Não se preocupe”,  disse o homem. “É um bom emprego”. Transcorreu somente um par de dias até que Gabriel passasse a exercer com naturalidade sua nova função. Embora seja difícil definir o escopo de atuação de nosso protagonista, não restam dúvidas sobre seu empenho e dedicação. Não tinha hora para entrar, nem para sair. Seu ofício também não dispunha de localização fixa. O mundo era seu escritório.Ainda que inconscientemente, havia abandonado o entorno que o cercava. Foi esquecido pelos amigos, e deles também esquecia deliberadamente. A família o abandonara, e todos ao seu redor estranhavam aquela súbita mudança de postura perante a vida. Encarava os fatos com naturalidade, tamanha que poder-se-ia confundi-la com desdém.

“Estou amadurecendo”.

Apesar da carga, quase nunca era cobrado. Era como se trabalhasse por inércia. Desta forma, foi surpreendido quando o chefe solicitou uma reunião; antes disso, não havia tido uma conversa sequer com o benfazejo patrão. Marcaram de se encontrar naquela mesma esquina cinza. Cumprimentos e formalidades seladas, travou-se o seguinte diálogo:

– Preciso de você – disse o superior, trajando a mesmíssima combinação do primeiro encontro entre os dois.

– Para fazer o que, desta vez? – respondeu Gabriel.

– Você não entendeu – retrucou. – Preciso de você.

Em princípio, Gabriel não havia compreendido a semântica do pedido. Algumas frações de segundo à frente, porém, recebeu a devida explicação. “Tenho de exigir-lhe uma contrapartida, e não estou a falar de resultados”, disse. Gabriel pôs-se a rir. Sem o menor franzido na testa, o homem prosseguiu tranquilamente. “Pois bem, você deve pagar em até dois dias. Pode ficar com dinheiro, te darei até mais, mas não esqueça destas minhas palavras”. Gabriel voltou para casa sem saber como quitar sua dívida. “Que diabos ele quer com isso?”, perguntava a si mesmo. Tratava-se, por evidente, de uma equação errada, “um disparate”, já que havia trabalhado como um egípcio na consecução das missões que lhe foram outorgadas. A esta altura, porém,  não tinha mais a quem recorrer para dirimir suas dúvidas ou pedir ajuda. O prazo dado pelo misterioso patrão estourou, o que foi prontamente ignorado pelo outrora dedicado funcionário. Intrigado, Gabriel não podia mais definir a própria essência.

Em realidade, já a perdera: enfim o pagamento estava feito.

Afasia

Posted in Literatura by Shepones on 14/02/2010

A indecisão o demovia da ação, e o tornava mais e mais procrastinador à medida que seu já escasso tempo passava. Estava confuso quanto a seus desejos, e isso apronfudava-lhe a inércia de pensamento. Ainda mantia, por sorte, a fidelidade às próprias verdades, que o ajudavam a delinear esboços mal ajambrados de futuro. O presente não tinha lá muito sentido, e o passado era só uma lembrança afetuosa, a qual abraçava efusivamente em momentos de carência de objetivos. “Não sei”. Era assim que matutava seus dias e boa parte deles.

Folião

Posted in Literatura by Shepones on 13/02/2010

Macarrão, um amontoado de discos, amor dobrado e Coca-Cola. A alegria está nas ruas, mas é numa casinha de subúrbio que vive a felicidade plena do Carnaval.

Mufasa

Posted in Literatura by Shepones on 11/02/2010

Filho de mãe solteira nasce e é criado em grande metrópole latino-americana, com auto-estima baixa e capital suficiente apenas para o fliperama. Recupera a confiança em si mesmo após ser vítima de bullying durante os anos na escola. Vai para o fundão. Passa o rodo, acaba com as espinhas, vê o time ser campeão mundial e conhece os integrantes de sua banda favorita no camarim depois de um show de 4 horas de duração. Conhece a mulher da sua vida, arruma um emprego onde ganhará o dobro do anterior – menos de 24h depois de ser demitido deste – e tem sua primeira amnésia alcóolica. Formado, resolve as pendências de uma vida familiar  burocrática e instável, supera as neuroses de pai, dispondo de finanças suficientes para o busão e o táxi. Tem um filho, um matrimônio e compra uma casa no campo. Vê o Brasil se vingar do Uruguai, e não deixa de sorrir de soslaio com o gol de Messi sobre a Seleção na final de 2014, no Maracanã.  Assiste Into The Wild pela quinta vez e larga tudo em busca da completude interior. Volta mestrado em artesanatos de beira de estrada, e com um dente a menos. Vai ao dentista, monta uma banda de rock e viaja pelo mundo como se não houvesse terra sob o céu. Cresce os filhos, no plural, e ainda dá 3 por dia sem apelação. O socialismo não vem; o ego fora abolido. Aposenta-se, mas não deixa de jogar o futebol da madrugada com os netos. Ainda não aprendeu a tocar contrabaixo como deveria. Em compensação, passou a frequentar o Estádio do Morumbi duas vezes por semana após a inauguração do metrô mais próximo, em 2054.  Morre sob uma salva de palmas, entre amigos e pessoas amadas que creditar-lhe-iam a dignidade de espírito e a inabalável crença no ser humano.  De herança, uma coleção que já contabiliza 132 camisas de futebol, centenas de ingressos de shows de rock a que comparecera e os mais de 780 discos de vinil – todos da década de 90. O Corinthians, para felicidade além-vida, continua sem o título da Libertadores. Mesmo em pensamentos, a mulher ainda lhe faz cafunés no pescoço, enquanto cochicha juras de amor à espera do encontro final.

REM

Posted in Literatura by Shepones on 03/02/2010

Tenho tido sonhos confusos. Deles, lembro sempre do começo e do meio. Muitos parecem presságios, enquanto outros se assemelham a um passado não muito distante. Será o presente o fim? Tenho me esforçado em acordar animado e bem disposto, embora a realidade teime em antagonizar minha existência madrugada a dentro.  Hmmm. Vou ali pegar um copo de suco de maracujá. Voltando.  Sonhos são como uma amarração em nossas vidas;  sonhar pode ser uma atividade despretensiosamente improdutiva, ainda mais se você não possuir uma capacidade fordista de materializar imaginações. Excesso de pragmático, cinismo, amargura? É possível, mas não invalida a força do argumento. Eu também sonho, mas não escondo minha paralisia sob abstrações de nenhuma sorte. Ao fim e ao cabo, a quem se quer enganar? Deixa o sonho quieto lá. Não fosse ele, o homem não teria em que se escorar para justificar a própria nulidade diante do mundo. Quer suco?

Reconforto

Posted in Literatura by Shepones on 02/02/2010

As barras de ferro empesteadas pela fuligem garantiam ao corredor estreito do veículo alguma familiaridade. Cachorros, pulgas e pães  amanhecidos eram a única companhia deste homem, cuja barba por fazer completara algumas décadas não faz muito tempo. Vivia com sete cachorros e, ainda assim, lograra manter a mais militar higiene no local.

A catraca lhe servia de hall de entrada, e as portas sem pressão eram seu “seja bem vindo!” às improváveis visitas que eventualmente lhe davam sinal – geralmente assistentes sociais, papeleiros ou a carrocinha. A moradia ficava em distrito acessível, porém ermo durante a noite; um lampião rústico, furtado duma lixeira nas cercanias, era sua defesa contra a escuridão que se impunha.

Numa terça-feira que não destoava de outra qualquer, este homem estranhou a ausência do quinto de seus cães, um vira-lata mulambento de pelagem amarronzada, irregular e esburacada. Aflito, sentou-se num dos bancos da composição, acendou um cigarro – comprava-os sempre a granel – e passou a refletir. Ficou nisto por pouco tempo, pois seria ingenuidade ou má-fé imaginar que a auto-crítica consista exercício saudável.

O quinto voltou, juntando-se aos outros seis. O homem apagou o cigarro, alienou-se e expulsou a ansiedade que lhe acometia.  Como não necessitasse de sentir profundamente, contentou-se em afagar sua pequena matilha, num gesto de compreensão incomum entre seres mais objetivos.

Entreato

Posted in Literatura by Shepones on 01/02/2010

Estavam juntos sob sol, chuva ou cataclisma de qualquer natureza. Imiscuiram-se em amor, pois tinham fé um noutro. Um ateu de verdade não pode amar, donde não haveria cegueira a sustentar tamanha luz. Minutos, horas, dias, semanas, meses, não mais que um solstício de plenitude, mutualidades e recíprocas.  O resto, foda-se, quem liga? Pois não tardou e ligou; muito embora não tenha havido hecatombe climática de nenhuma espécie, registraram-se sismos profundos. Nestas horas, sabe-se, é impossível distinguir o bem do mal, cujas propriedades variam de acordo com a ocasião. O cinza e o quarenta também rarearam, e com isto nunca mais se teve notícia do bom senso. Quebrou-se, enfim, e tomaram direções opostas. Os dedos nus por certo sentiram falta do roçar, da cumplicidade e de umidades várias, nutridas pela pureza de quem um dia, imprevisivelmente, fora responsável pelo intempestivo desmonte.

Estática

Posted in Literatura by Shepones on 30/01/2010

João estava entediado. “O que vai acontecer agora”, perguntava a si mesmo, de modo que seus interlocutares identificavam na fala um distanciamento deliberado, comum naqueles que preferem atribuir ao trabalho do acaso a obra do próprio destino. João não acreditava em destino; era um materialista, ao menos da boca pra fora, e considerava a metafísica inconcebível, por mais física que fosse. Principiou ter pensamentos ruins que nunca lhe houvera ocorrido.  Além disso sabia que não deveria dramatizar a situação, embora com frequência tivesse vontade de criar um novo mundo, como quem reseta um videogame. Acreditava no ser humano. O pão e o teto eram compartilhados com a família, cuja convivência resultava mais de pragmatismo que de sentimentos cristãos propriamente ditos. Tinha amigos, mulheres, patrimônio e um papagaio, mas não achava o suficiente. E não era.Depois de anos, sentia-se, pela primeira vez, irremediavelmente sozinho e frustrado, como quem não tivesse um norte para chamar de seu. “Vai ser sempre assim”, resmungava, com uma mistura de resignação e aflição.  João, por evidente, não podia previa o futuro. Ruminou, sentiu, chorou, matutou, optou mais uma vez por ignorar.  Lá fora o cinza das ruas o aguardava para outra caminhada.

Chuva de verão

Posted in Literatura by Shepones on 29/01/2010

Nas ruas uma chuva espessa, vilinha velha e aconchegante, sem o prevísivel barulho das crianças correndo, gritando, jogando a maldita bola típica do mês de janeiro.  A janela branca entreaberta, madeira carcomida, abafava a solidão e o embaraço que emanavam do lugar; num canto, ouvia remanescências de sílabas, vozes distantes, quiproquós alheios, mas não emitia juízo sobre estes últimos. Estava espalhado sobre uma cadeira desconfortável, enquanto tentava ajustá-la a sua altura. Também lutava contra pensamentos imerecidos. Chovia mais, e não haveria como prever seu fim. Não é questão de justiça, tampouco de mérito, logo as más ideias permaneceram esfoliando sua paz. Parou para pensar, e isto lhe reforçou ainda mais a inquietude de espírito. Desceu, sacou um copo em cuja cavidade afundou-se de água geladíssima, e regressou ao quarto onde  ficou por tanto tempo, sem saber-se vivo ou morto. Na mesma.  No reflexo das gotas  a molecada chutava, “comigo não morreu”, “próximo”, “toca porra”;  do meio das nuvens se foi o cinza em detrimento do azul e o sol principou assentar-se, e de longe foi possível sentir o bater daquelas ancas roídas de floresta. A chuva findou, e ouviu-se também um  salto. Desprovido da essência, o corpo nunca fora encontrado. A alma, dizem, continua por aí, sem destino, como um andarilho lutando contra seu próprio limbo de verão.